Jussara Soares
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Jussara Soares

Em Brasília desde 2018, está sempre de olho nos bastidores do poder. Em seus 20 anos de estrada, passou por O Globo, Estadão, Época, Veja SP e UOL

Acareação com Braga Netto é o pior momento para Cid, avaliam militares

"Hierarquia e disciplina" devem aumentar pressão no confronto entre o tenente-coronel e o general sobre a trama golpista

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A acareação do tenente-coronel Mauro Cid com o general Walter Braga Netto, marcada para próxima terça-feira (24), é considerada por militares e aliados o pior momento para o ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro (PL) ao longo do processo que apura uma tentativa de golpe de Estado no país.

O tenente-coronel, que tem um acordo de colaboração premiada, ficará frente-a-frente com o general de quatro estrelas e ex-ministro da Defesa.

Por determinação do ministro Alexandre de Moraes, Braga Netto, preso em uma unidade do Exército no Rio de Janeiro, terá que ir pessoalmente a Brasília para a acareação. No interrogatório no início de junho, o general participou por videoconferência.

Agora, Cid terá de sustentar, diante de um superior hierárquico, o que disse na delação e repetiu no interrogatório: que Braga Netto era o elo entre Bolsonaro e movimentos golpistas e que recebeu do general dinheiro, em uma sacola de vinho, no Palácio do Alvorada. A ideia, segundo Cid, era que o montante fosse entregue a militares que tramavam um plano para impedir a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Braga Netto nega a versão de Cid e diz que o ex-ajudante de ordens mente.

A avaliação entre militares é que a "hierarquia e disciplina" do Exército possa exercer uma pressão extra em Mauro Cid, como também poderá ser usada por Braga Netto para desestabilizar o tenente-coronel durante o confronto de versões. Para integrantes da Força, aliás, é nisso que o ex-ministro aposta para desqualificar a delação.

O general conhece Cid desde criança, pela amizade com o pai do tenente-coronel, o também general Mauro Lourena Cid.

O ex-ministro da Defesa foi preso em dezembro de 2024 por tentativa de obstruir a investigação da trama golpista através de contato com familiares do delator.

Para pessoas próximas, o confronto com Braga Netto é pior do que quando Cid, em março de 2024, teve de explicar ao STF o vazamento de um áudio em que criticava a investigação e saiu da audiência preso. O tenente-coronel passou mal na ocasião.

Aliados também avaliam que o momento será ainda mais tenso do que quando, em novembro de 2024, Cid depôs diretamente ao ministro Alexandre de Moraes, do STF, para esclarecer omissões e contradições apontadas pela Polícia Federal. Foi neste depoimento que o tenente-coronel mais implicou o general. Braga Netto foi preso dias depois.

Durante o interrogatório no início de junho, Mauro Cid, que era considerado um militar em ascensão na Força, prestou continência aos generais Augusto Heleno, ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional; e a Paulo Sérgio Nogueira, ex-ministro da Defesa e ex-comandante do Exército – também réus por tentativa de golpe. O clima, na ocasião, foi ameno. Com Braga Netto, a expectativa é de que não haverá espaço para cordialidades.