Jussara Soares
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Jussara Soares

Em Brasília desde 2018, está sempre de olho nos bastidores do poder. Em seus 20 anos de estrada, passou por O Globo, Estadão, Época, Veja SP e UOL

Ala “lata de conserva” na Sapucaí amplia ruído de Lula com evangélicos

Deputado Otoni de Paula diz que presidente "colocou uma pá de cal na tentativa de diálogo com a igreja"

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Aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) consideram a ala que retratou evangélicos em fantasias de “latas de conserva” o erro político mais grave do desfile da Acadêmicos de Niterói, no domingo (15), no Rio de Janeiro.

Para além do risco de penalizações na Justiça Eleitoral sob acusação de propaganda antecipada, a avaliação é que esse trecho da apresentação na Sapucaí reforça o distanciamento da esquerda com esse segmento religioso do eleitorado, mais refratário a Lula.

Sob reserva, aliados avaliam que o desfile deu de presente para a direita um argumento para impedir uma aproximação do presidente com evangélicos. Ao longo de todo o mandato, o governo buscou acenar para o grupo religioso, majoritariamente associado ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Um dos poucos parlamentares evangélicos que buscou se aproximar de Lula, o deputado federal Otoni de Paula (MDB-RJ) disse que o petista repete os erros de comunicação de Bolsonaro.

"Lula comete os mesmos erros de Bolsonaro: arrogância e comunicação exclusiva com sua bolha eleitoral. Quantos votos Lula perderia se fosse cauteloso e não participasse do desfile? Nenhum. Quantos pode ter perdido ou deixará de ganhar com esse movimento? Muitos. O PT não calculou que uma parte considerável dos eleitores de Lula é conservadora. Enfim, a direita agradece", disse à CNN Brasil.

Nesta segunda-feira (16), parlamentares da oposição acionaram a PGR (Procuradoria-Geral da República) por causa da ala "neoconservadores em conserva". A fantasia trazia uma lata, representando uma família tradicional, composta por um homem, uma mulher e os filhos. Na cabeça, os componentes traziam adereços variados com referência ao agronegócio, a uma mulher de classe alta, aos defensores da ditadura militar e aos evangélicos.

Os autores das notícias-crime foram o senador Magno Malta (PL-ES) e o deputado federal Rodolfo Nogueira (PL-MS). Nos dois pedidos, os parlamentares sustentam que houve ridicularização pública do grupo religioso em apresentação transmitida nacional e internacionalmente. Para eles, a encenação ultrapassou a manifestação artística e pode configurar crime.

"O desastre é tão grande que, de uma só vez, Lula se associa ao ataque aos conservadores, aos católicos e evangélicos e à família tradicional. Foi um arco triplo. Lula colocou uma pá de cal na tentativa de diálogo com a igreja", acrescentou Otoni.

Integrantes do PT e do governo argumentam que não houve interferência no enredo da Acadêmicos de Niterói, assinado pelo carnavalesco Tiago Martins.

Em nota divulgada nesta segunda (16), o PT afirmou que "o enredo apresentado é manifestação típica da liberdade de expressão artística e cultural, plenamente assegurada pela Constituição Federal".

"A concepção, desenvolvimento e execução do desfile ocorreram de forma autônoma pela agremiação carnavalesca, sem participação, financiamento, coordenação ou qualquer ingerência do Partido dos Trabalhadores, ou do presidente Lula", diz o comunicado.

O desfile da Acadêmicos de Niterói é mais um desgaste de Lula com os evangélicos. No início do mês, em evento de aniversário do PT em Salvador (BA), o presidente disse que "90% dos evangélicos ganham benefícios do governo”.

Na ocasião, Lula defendeu que a militância petista dialogue com esse público. Porém, a fala acabou irritando líderes religiosos.

O líder do PL na Câmara dos Deputados, Sóstenes Cavalcante (RJ), protocolou uma representação na PGR (Procuradoria-Geral da República) contra o presidente. O parlamentar pediu a abertura de investigação por abuso de poder político e uso da máquina pública com finalidade eleitoral, com foco no pleito de 2026.

Para Sóstenes, a declaração configura uso indevido da autoridade do cargo e tentativa de influência eleitoral. O deputado afirma que o presidente se valeu da estrutura do Estado e da visibilidade institucional para associar a concessão de benefícios sociais ao apoio político, o que, segundo ele, caracteriza abuso de poder político, conforme a Lei Complementar nº 64/1990, conhecida como Lei das Inelegibilidades.