Jussara Soares
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Jussara Soares

Em Brasília desde 2018, está sempre de olho nos bastidores do poder. Em seus 20 anos de estrada, passou por O Globo, Estadão, Época, Veja SP e UOL

Análise: Tarcísio ataca Moraes para ser abraçado pelo bolsonarismo

Governador transforma ato em palanque, pressiona Hugo Motta e usa termos como “ditador” e “tirania” para se referir ao ministro relator do plano de golpe

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O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), foi para a Avenida Paulista neste 7 de Setembro disposto a ser abraçado pelo bolsonarismo.

Na ausência de Jair Bolsonaro, Tarcísio assumiu os ataques ao STF (Supremo Tribunal Federal) e ao ministro Alexandre de Moraes, relator do processo que pode condenar o ex-presidente por tramar um golpe para permanecer no poder.

Também pressionou o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), para pautar uma proposta de anistia aos envolvidos no 8 de janeiro.

 

"Não vamos aceitar a ditadura de um Poder sobre o outro. Chega!", disse. "Não vamos aceitar que nenhum ditador diga o que temos que fazer", acrescentou.

Por fim, no ato no Dia da Independência, bradou para o público que ostentava uma bandeira dos Estados Unidos, em meio às sanções do governo Donald Trump ao Brasil: "Ninguém aguenta mais a tirania de um ministro como Moraes."

O governador nega que a disputa pelo Palácio do Planalto em 2026 esteja no seu radar e defende que Bolsonaro, mesmo inelegível, esteja nas urnas. Um costurado sob medida, que reforça lealdade ao ex-presidente ao mesmo tempo em que demonstra preparo para ser o seu sucessor.

Escolhido pelo Centrão e por parte do empresariado como o nome mais viável na direita na disputa contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Tarcísio precisa ganhar a confiança do bolsonarismo para viabilizar apoios e votos.

O governador de São Paulo, até este domingo, era criticado por ter uma aura "moderada demais" e muitas vezes chamado de "oportunista" pelo núcleo mais próximo do ex-presidente.

O relatório da PF (Polícia Federal), que indiciou o deputado e o ex-presidente por coação, expôs as críticas de Eduardo ao governador de São Paulo.

Em mensagens enviadas ao pai, o parlamentar reagiu à possibilidade de Tarcísio ser candidato e também ao fato de o governo ter diálogo com o STF. "Tarcísio nunca te ajudou em nada no STF", disse.

A situação começou a mudar quando o chefe do Executivo paulista tomou a dianteira na articulação para um projeto de anistia ampla com o objetivo de perdoar Bolsonaro e outros réus pelo plano de golpe. O movimento vinha rendendo elogios de bolsonaristas a Tarcísio,

"Estamos felizes em ver o Tarcísio alinhado conosco pela anistia", disse Paulo Figueiredo à CNN. Junto com o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), o jornalista lidera as articulações por sanções dos Estados Unidos ao Brasil.

Na avaliação de aliados do ex-presidente, o governador escalou o discurso contra o STF por sobrevivência política. Para o grupo, Tarcísio sabe que, sem o bolsonarismo, não tem forças nas ruas, apesar de ter o apoio de caciques do Centrão e do mercado.

Ao buscar o colo do bolsonarismo, o governador de São Paulo se afasta da imagem “independente” que vinha tentando construir. O recado deste domingo foi claro para 2026: Tarcísio é Bolsonaro.