Jussara Soares
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Jussara Soares

Em Brasília desde 2018, está sempre de olho nos bastidores do poder. Em seus 20 anos de estrada, passou por O Globo, Estadão, Época, Veja SP e UOL

Bolsonarismo minimiza afago a Lula e fala em "estratégia" de Trump

Presidente dos EUA não mencionou Jair Bolsonaro em discurso na ONU e disse ter tido "ótima química" com petista

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Bolsonaristas minimizaram o discurso do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, nesta terça-feira (23) na Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas), em que o americano não mencionou o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e fez afagos ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

O entorno do ex-presidente, condenado a 27 anos e três meses de prisão em regime fechado por tentativa de golpe de Estado, afirma que a fala de Trump é uma estratégia para forçar Lula a ir à mesa de negociação.

No púlpito da ONU, Trump disse que teve uma rápida conversa com Lula nos bastidores e que foi suficiente para dizer que havia uma "química excelente" ali.

"Nós não tivemos muito tempo para falar aqui, foram tipo, 20 segundos. Nós conversamos, tivemos uma boa conversa e combinamos de nos encontrar na semana que vem, se for do seu interesse. Ele parecia um homem muito legal, na verdade, ele gostava de mim, eu gostava dele. E eu só faço negócios com pessoas de quem gosto", afirmou Trump.

"Tivemos ali uma química excelente e isso foi um bom sinal", acrescentou o americano.

A declaração foi dada logo após Lula abrir os discursos da Assembleia Geral da ONU e dizer que a agressão contra o Poder Judiciário do Brasil é inaceitável.

"A agressão contra a independência do Poder Judiciário é inaceitável. Essa ingerência em assuntos internos conta com o auxílio de uma extrema-direita subserviente e saudosa de antigas hegemonias. Falsos patriotas arquitetam e promovem publicamente ações contra o Brasil. Não há pacificação com impunidade", disse Lula.

Para bolsonaristas, que veem nas sanções americanas aplicadas ao Brasil uma saída para livrar Bolsonaro da condenação, Trump força Lula a negociar.

À CNN, sob reserva, aliados de Bolsonaro dizem que Trump criou um problema para Lula e que ainda ironizou dizendo que o Brasil não tem como ir longe sem os EUA.

"Lamento muito dizer que o Brasil está indo mal e continuará indo mal. Eles só conseguirão se sair bem quando trabalharem conosco; sem nós, eles fracassarão, assim como outros fracassaram", alertou.

Aliados do ex-presidente também disseram que o fato de Trump não ter mencionado Bolsonaro em sua fala faz parte de uma estratégia para forçar encontro com Lula e depois cobrar a anistia.

Nas redes, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) disse que Trump repetiu com Lula uma estratégia conhecida e lembrou que a esposa do ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), foi sancionada com a Lei Magnitsky.

"Para quem conhece as estratégias de negociação de Donald Trump, nada do que aconteceu foi surpresa. Ele fez exatamente o que sempre praticou: elevou a tensão, aplicou pressão e, em seguida, reposicionou-se com ainda mais força à mesa de negociações. Ontem mesmo, sancionou a esposa do maior violador de direitos humanos da história do Brasil, um recado claro e direto."

O produtor de conteúdo Paulo Figueiredo, que atua nos EUA com Eduardo, também minimizou a fala de Trump. Segundo ele, o americano deixou Lula numa "situação impossível".

"Todo dia Trump elogia líderes do mundo inteiro como o da Índia, China, Rússia. E coloca mais tarifas no bumbunzinho deles até que façam o que ele quer. Mas tudo com muito amor e carinho", escreveu.

Desde o anúncio das sanções em julho, com a sobretaxa de 50% a produtos brasileiros e medidas contra autoridades brasileiras, Lula tem reafirmado que não negocia a soberania. Ele voltou a repetir a fala nesta terça-feira em Nova York.

"Diante dos olhos do mundo, o Brasil deu um recado a todos os candidatos a autocratas e àqueles que os apoiam: nossa democracia e nossa soberania são inegociáveis", disse Lula ao citar o julgamento de Bolsonaro pela trama do golpe de Estado.