Jussara Soares
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Jussara Soares

Em Brasília desde 2018, está sempre de olho nos bastidores do poder. Em seus 20 anos de estrada, passou por O Globo, Estadão, Época, Veja SP e UOL

Paulo Figueiredo: "É provável que Trump imponha medidas adicionais ao Brasil"

Aliado de Eduardo Bolsonaro diz que governador Tarcísio não goza de articulação internacional

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A iniciativa do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), de se colocar como um negociador com os Estados Unidos por um recuo na tarifa de 50% aos produtos brasileiros se tornou alvo de críticas de bolsonaristas.

À CNN, o jornalista Paulo Figueiredo, que ao lado do deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) se coloca como o interlocutor da Casa Branca, diz que o governador atrapalha e que ele negocia com o "sexto escalão da diplomacia".

Tarcísio se reuniu com o encarregado de negócios da embaixada dos Estados Unidos, Gabriel Escobar, na sexta-feira (11) em Brasília. Nesta terça (15), o diplomata deve participar de uma reunião com o governador e empresários paulistas.

"As pessoas pensam que é fácil chegar à Casa Branca. Não é. Vão dar com a cara na porta. Tarcísio está atrapalhando, porque dá a impressão ao establishment que há alguma outra alternativa que não passe pela anistia", disse à CNN.

Neto do ex-presidente da ditadura militar João Figueiredo e réu no processo de tentativa de golpe, o jornalista diz que não há caminho para negociação fora de uma anistia.

"O mais provável é que Trump imponha medidas adicionais ao Brasil e medidas específicas, como sanções individuais, a certas figuras (no plural)", afirmou.

Leia a entrevista na íntegra:

CNN - A sobretaxa de 50% aos produtos brasileiros por Donald Trump é uma ação direta do senhor e do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP)? Qual o nível de acesso e articulação de vocês com a Casa Branca?

Paulo Figueiredo - Eduardo e eu temos tido conversas frequentes com a Casa Branca, Departamento de Estado e outros órgãos do governo americano, além do Congresso dos EUA, com o objetivo de expor a situação da ditadura brasileira. Mas a criação da Tarifa-Moraes foi uma decisão exclusiva do presidente Donald Trump - ao meu ver, acertada.

CNN - Os senhores têm a garantia que uma anistia ao ex-presidente Jair Bolsonaro suspenderia o tarifaço?

Paulo Figueiredo - Não buscamos uma anistia ao ex-presidente, mas sim uma anistia ampla, geral e irrestrita a todos os perseguidos políticos. O presidente Bolsonaro é o maior deles. Temos confiança de que a anistia nestes moldes é a condição mínima necessária para que seja aberta uma negociação.

CNN - O governo brasileiro diz que processos judiciais não estão na mesma de negociação. Diante disso, quais os próximos passos podem ser dados por Trump?

Paulo Figueiredo - Não se trata de interferência em processos judiciais. Isso é uma falácia. Há décadas o Brasil está inserido na comunidade internacional democrática, liderada pelos Estados Unidos.

Essa inserção traz privilégios, mas exige compromissos civilizatórios mínimos: respeito aos direitos humanos, ao devido processo legal, à liberdade de expressão, de imprensa e à realização de eleições transparentes, com ampla participação da oposição. O Brasil precisa retomar estes compromissos se quiser voltar a gozar de uma boa relação com os EUA ou arcar com as consequências.

CNN - Há espaço para negociar um recuo das tarifas sem anistia? Quais os caminhos para isso e com quem?

Paulo Figueiredo - Não. Em hipótese alguma.

CNN - A medida Trump causa desgaste para o bolsonarismo? Há críticas dentro da própria direita e de setores que sempre foram aliados do próprio ex-presidente Bolsonaro, como empresários e o agronegócio, enquanto o governo Lula adota o discurso de que a família Bolsonaro colocou o interesse pessoal acima dos interesses do país...

Paulo Figueiredo - Em primeiro lugar, não estamos preocupados com isso — como demonstra a disposição do deputado Eduardo Bolsonaro de abrir mão do próprio mandato.

Há muitas coisas na vida acima do cálculo político. Mas, se querem analisar sob esta ótica, quem paga o preço eleitoral da ruína econômica é sempre o presidente que está no poder. Em bom português: quando as consequências econômicas vierem, Lula ficará ainda mais desgastado.

CNN - O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), se colocou à disposição para fazer a interlocução com os Estados Unidos para o recuo das tarifas. Qual a sua avaliação?

Paulo Figueiredo - Não goza de nenhuma capacidade de articulação internacional. As pessoas pensam que é fácil chegar à Casa Branca. Não é. Vão dar com a cara na porta.

Tarcísio está atrapalhando porque dá a impressão ao establishment que há alguma outra alternativa que não passe pela anistia — e faz isso enquanto negocia com o sexto escalão da diplomacia, que não goza de nenhum acesso ao presidente Trump. É uma aposta errada que vai custar caro ao empresariado, que deveria estar pressionando o STF a permitir que o Congresso aprove com extrema urgência uma anistia.

CNN - Há uma percepção de que Trump pode recuar da sobretaxa ao Brasil, como em outras ocasiões. Se isso acontecer, não enfraquece o pedido de anistia de vocês?

Paulo Figueiredo - Você conhece as 5 fases do luto descritas no modelo de Kübler-Ross? Estamos na primeira: negação. Mas as próximas virão — raiva, barganha, depressão e, por fim, aceitação. O mais provável é que Trump imponha medidas adicionais ao Brasil e medidas específicas, como sanções individuais, a certas figuras (no plural).

CNN - Que figuras?

Paulo Figueiredo - Alexandre (de Moraes, ministro Supremo Tribunal Federal) e seus apoiadores.