Jussara Soares
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Jussara Soares

Em Brasília desde 2018, está sempre de olho nos bastidores do poder. Em seus 20 anos de estrada, passou por O Globo, Estadão, Época, Veja SP e UOL

Visita de Lula a Trump pode servir como "vacina" para eleição

Planalto vê oportunidade de encontro em Washington, previsto para março, para afastar tentativa de interferência na disputa presidencial

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A visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a Donald Trump, em Washington, nos Estados Unidos, pode servir como uma “vacina” contra uma eventual interferência norte-americana na eleição presidencial deste ano, na avaliação do Palácio do Planalto.

O encontro, segundo auxiliares, é visto como uma oportunidade para Lula reforçar a Trump que é um interlocutor confiável, apesar das divergências, e destacar a transparência do processo eleitoral. Com isso, a expectativa é afastar tentativas de contaminação por parte de aliados da direita brasileira que orbitam o entorno do presidente dos Estados Unidos.

Na percepção de integrantes do governo brasileiro, embora a ofensiva do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e do empresário Paulo Figueiredo tenha naufragado com a abertura do diálogo entre Lula e Trump, a direita deve seguir se mobilizando em busca de apoio externo na disputa pelo Planalto.

O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), condenado a 27 anos e três meses por tentativa de golpe de Estado, indicou seu filho e senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para enfrentar Lula nas urnas.

O receio brasileiro decorre justamente da política externa do presidente americano para a América Latina, incluindo ações na Venezuela e o endosso a líderes conservadores na região alinhados aos interesses do republicano.

Além disso, nas eleições americanas de 2024, Lula declarou apoio à candidata democrata Kamala Harris, derrotada por Trump. Ou seja, está dentro do esperado que o republicano também se posicione contra o petista.

De todo modo, ainda que não haja uma declaração aberta de apoio por parte de Trump, as preocupações recaem sobre a influência americana por meio das big techs, com o uso das redes sociais e de inteligência artificial.

Lula e Trump conversaram por 50 minutos por telefone nesta segunda-feira (26) e combinaram uma visita do brasileiro a Washington, prevista para março.

Para o Itamaraty, a prioridade neste momento é discutir as questões comerciais, com a retirada de tarifas sobre produtos brasileiros; abordar a situação da Venezuela; e tratar do convite para o Brasil participar do Conselho de Paz proposto por Trump para a reconstrução da Faixa de Gaza.

Diplomatas reforçam que a cautela segue necessária diante do perfil imprevisível de Trump, mas admitem que o Salão Oval, onde o republicano já constrangeu outros líderes, já não é visto como uma arapuca. A avaliação é que a relação entre os presidentes já atingiu um nível de confiança que permite a Lula discordar do colega americano.