O inglês do árbitro brasileiro: corrigir gramática ou celebrar iniciativa?
Fala de Wilton Pereira Sampaio durante arbitragem do torneio viralizou nas redes

Na abertura da Copa do Mundo, um momento chamou a atenção para além do lance em si. O árbitro brasileiro Wilton Pereira Sampaio anunciou sua decisão em inglês após a revisão do VAR e, em poucos minutos, o vídeo viralizou nas redes sociais. Houve quem elogiasse a iniciativa e houve quem transformasse a fala em motivo de piada.
A frase dita foi: "After review, attacker number 11 commit serious foul play, and arm direct the face the
defender. Decision: direct free kick, red card."
Do ponto de vista linguístico, a frase apresenta alguns problemas. O verbo deveria estar no passado (committed), faltam artigos (the attacker), preposições importantes (to the face of the defender) e algumas construções soam pouco naturais para um falante nativo.
Uma versão mais adequada seria: "After review, the attacker, number 11, committed serious foul play by making direct contact with the defender's face. Decision: direct free kick, red card."
Ou, de forma ainda mais próxima do padrão utilizado em competições internacionais: "After review, the attacker, number 11, committed serious foul play by striking the defender in the face. Decision: direct free kick and red card."
Mas será que isso significa que o árbitro "falou inglês errado"? A resposta merece mais equilíbrio do que costuma aparecer nas redes sociais.
Do ponto de vista técnico, havia espaço para ajustes. Alguns verbos poderiam estar no passado, determinadas preposições tornariam a mensagem mais natural e pequenas escolhas de vocabulário aproximariam a fala do inglês utilizado em competições internacionais. São detalhes que um treinamento específico certamente aperfeiçoaria.
Wilton Pereira Sampaio teve a coragem de fazer algo que milhões de brasileiros ainda evitam: comunicar-se em inglês diante de uma audiência mundial, ao vivo, sob enorme pressão e sabendo que qualquer palavra seria analisada por torcedores, jornalistas e especialistas.
Enquanto muitos brasileiros deixam de falar inglês por medo de errar, o árbitro fez exatamente o contrário. Assumiu o desafio, transmitiu sua mensagem e cumpriu seu principal objetivo: ser compreendido. Em comunicação internacional, especialmente em eventos esportivos, clareza costuma ser muito mais importante do que perfeição absoluta.
Vale lembrar que árbitros não são professores de idiomas nem intérpretes profissionais. Sua função é aplicar as regras do jogo, controlar atletas, tomar decisões em frações de segundo e administrar partidas que podem mudar a história de uma Copa do Mundo. Ainda assim, hoje também precisam se comunicar com jogadores, técnicos e torcedores de diferentes nacionalidades.
Esse episódio mostra como o futebol se tornou verdadeiramente global. O inglês passou a ser mais uma ferramenta de trabalho para árbitros, assim como já é para jogadores, treinadores e dirigentes. Naturalmente, quanto maior for o treinamento nessa área, mais padronizada e precisa será essa comunicação.
Como professor de inglês há mais de duas décadas, vejo essa cena por outro ângulo. Prefiro elogiar quem fala com pequenos erros, pois já está um passo à frente de quem nunca teve coragem de tentar. Afinal, ninguém alcança a fluência sem antes cometer equívocos. Errar faz parte do processo de aprender qualquer idioma.
Talvez a maior lição desse episódio seja justamente essa. O verdadeiro problema não é falar inglês com pequenas imperfeições. O verdadeiro problema é deixar de falar por medo do julgamento dos outros. Se quisermos formar brasileiros mais preparados para um mundo cada vez mais conectado, precisamos incentivar a comunicação e não apenas apontar erros.
No fim das contas, Wilton Pereira Sampaio não será lembrado apenas por uma decisão do VAR. Será lembrado por representar um novo momento do futebol mundial, em que um árbitro brasileiro se comunica diretamente com uma audiência global. E isso, independentemente de pequenos ajustes gramaticais, merece reconhecimento. Afinal, a fluência começa muito antes da perfeição.



