Análise: EUA e China precisam de acordo comercial
Se Trump projetar a reindustrialização para o longo prazo, pode evitar o colapso econômico

O acordo firmado entre Estados Unidos e China na segunda-feira (12) recolocou a sobretaxação entre os dois países no patamar do dia 2 de abril, quando o presidente americano, Donald Trump, anunciou o que chamou de “tarifas recíprocas” para todo o mundo, sendo 34% para os produtos chineses. A onda de retaliações entre os dois países elevou as tarifas a 145% sobre a China e 125% sobre os EUA, o que equivale a um bloqueio comercial.
Portanto, esse primeiro gesto não significa uma normalização do comércio, mas apenas a criação de condições para começar a negociar tarifas. Mesmo esse patamar, de 30% sobre os produtos chineses e 10% sobre os chineses, ainda compromete grande parte do comércio entre os dois países.
De qualquer forma, o anúncio revela a necessidade sentida por ambos de retomar o comércio. O mercado de consumo americano, assim como todos os setores produtivos -- indústria, agricultura e serviços -- dependem das partes, componentes, insumos e produtos acabados provenientes da China. Desfazer essa dependência é um objetivo estrategicamente válido, mas impossível de alcançar em poucos anos, para não dizer semanas, como exigem as tarifas altas.
Mas a China também depende do mercado americano. Os consumidores chineses poupam 40% de sua renda. Eles não têm muitas opções de investimentos. A principal delas eram os imóveis. Até a explosão da bolha imobiliária, iniciada em 2021. A especulação gerada por essa corrida dos poupadores levou as construtoras a se alavancarem excessivamente. O governo impôs novas regulações, o que causou a quebra de grandes empresas do setor.
Os índices da China não são confiáveis, e o jornal americano The Wall Street Journal calculou que a perda de poupança dos chineses com essa crise somou US$ 18 trilhões -- 38% a mais do que os investidores americanos perderam com a crise financeira de 2007 a 2009 nos Estados Unidos, segundo o Federal Reserve.
Diante disso, nos últimos quatro anos, o governo chinês investiu US$ 1,9 trilhão na construção de novas fábricas, com o objetivo de criar empregos, gerar renda e elevar apetite de consumo dos chineses.
Isso tem criado um excedente ainda maior de produtos manufaturados chineses e aumentado a dependência do mercado externo, do qual os Estados Unidos é o mais importante.
As tarifas de Trump ameaçam essa estratégia chinesa. Daí o interesse autêntico da China de encontrar uma solução negociada para a guerra comercial.
Com uma diferença: o regime chinês, com seu aparato de censura e repressão, é menos vulnerável à insatisfação popular do que a democracia americana, ainda mais num caso como esse, em que foi o presidente dos Estados Unidos que criou o problema, e não o da China. Com eleições de meio de mandato em novembro do ano passado, que renovarão toda a Câmara e um terço do mandato, Trump corre o risco de impeachment se não reverter o cenário de inflação e recessão desenhado pelas tarifas.
Além disso, Xi Jinping é menos impulsivo e emocional do que Trump, o que ajuda em uma disputa como essa.
Trump busca dois objetivos com as tarifas: a redução do déficit comercial americano, que somou US$ 918 bilhões em 2024, e a reindustrialização. O desfecho dessa guerra comercial por ele lançada depende do tempo que ele concederá ao segundo objetivo. Se se contentar em projetá-lo para o longo prazo, Trump conseguirá usar as tarifas para reduzir o desequilíbrio na conta comercial. Isso provavelmente causará inflação e ineficiências, mas não necessariamente um colapso econômico. Esse parece, hoje, o cenário mais provável.


