Ataques de Milei deterioram relações com Brasil em momento crítico
Guerra tarifária de Trump e disputa por influência entre EUA e China exigiriam coordenação estreita entre os dois presidentes

As relações entre Brasil e Argentina se deterioraram com os ataques do presidente argentino Javier Milei ao presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, e ao ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), Alexandre de Moraes, durante convenção do PL em São Paulo que lançou a candidatura do senador Flavio Bolsonaro ao Palácio do Planalto.
Lula e Milei já não se falavam desde a campanha eleitoral argentina de 2023, durante a qual o presidente argentino chamou Lula de "corrupto" e "comunista" e afirmou que em seu governo os dois países não teriam relações. Lula exigiu de Milei pedido de desculpas que nunca veio. O argentino, por sua vez, acusa o brasileiro de ter apoiado a candidatura de seu rival de esquerda, Sergio Massa.
Agora, Milei se recusa novamente a se desculpar e ainda acusa, sem apresentar provas, o governo brasileiro de envolvimento na campanha mundial contra a Argentina por causa de alegado favorecimento da seleção argentina pela Fifa na Copa do Mundo.
Líderes do Mercosul, Brasil e Argentina vivem uma grande interdependência no comércio. A relação ruim entre os dois países não influi diretamente sobre as relações comerciais. Mas trava qualquer iniciativa de coordenação entre os dois presidentes no âmbito do Mercosul.
Isso enfraquece os dois países, em um momento de enormes desafios, por causa da guerra tarifária lançada pelo presidente americano, Donald Trump, e pela disputa por influência entre Estados Unidos e China sobre a América Latina.
O contágio das disputas identitárias já retira racionalidade da política interna, diminuindo o espaço para discussões e negociações sobre políticas públicas. A extensão dessa contaminação à política externa complica ainda mais o quadro e aumenta os danos.
Quanto mais cooperação entre países como Brasil e Argentina, melhor para ambos. Inversamente, essas disputas retiram de ambos uma das maiores vantagens competitivas da região sobre outras partes do mundo: a ausência de conflitos geopolíticos.



