Lourival Sant'Anna
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Lourival Sant'Anna

Analista de Internacional. Fez reportagens em 80 países, incluindo 15 coberturas de conflitos armados, ao longo de mais de 30 anos de carreira. É mestre em jornalismo pela USP e autor de 4 livros

Timidez do Dia D econômico pode ter o efeito oposto ao desejado pelos EUA

Sanções contra 60 pessoas, organizações e navios associados ao Irã reforçam percepção de falta de opções

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O contraste entre o barulho causado pelo “Dia D econômico” contra o regime iraniano e o alcance real das sanções pode reduzir ainda mais a credibilidade dos Estados Unidos e incentivar o Irã e a China a chamar o blefe para demonstrar a fragilidade dos rivais americanos.

Depois de o presidente Donald Trump ameaçar na semana passada com medidas avassaladoras contra a economia americana, seu secretário do Tesouro, Scott Bessent, anunciou na segunda-feira (24) novas sanções contra 60 indivíduos, organizações e navios, que soaram muito mais como mais do mesmo do que propriamente como mudança de curso na disputa entre Estados Unidos e Irã.

Bessent procurou justificar a aparente cautela: “Estamos dando a todo mundo a oportunidade de remediar mau comportamento. Por que eu ia querer explodir o sistema financeiro global?” A declaração trai a preocupação do governo americano de evitar ainda mais danos econômicos-- e consequentemente eleitorais -- causados pelo conflito.

As sanções não atingem a China, cujos bancos possibilitam ao Irã continuar tendo acesso a recursos financeiros para realizar suas importações. Os Estados Unidos já sancionam seis refinarias chinesas independentes (apelidadas “bules de chá” por suas operações modestas) que importam petróleo iraniano. Mas, por terem atuação regional, elas não são significativamente afetadas pela falta de acesso ao dólar.

Já os bancos chineses que realizam as operações financeiras e cambiais com os exportadores iranianos dependem das transações em dólares para continuar atuando. Entretanto, sanções contra esses bancos provocariam quase certamente represálias severas da China, por exemplo, suspendendo as licenças para exportações de minerais críticos, dos quais depende a indústria americana, tanto civil quanto militar.

A China importa 80% do petróleo iraniano. Índia e Rússia também poderiam ser atingidas, no primeiro caso por comprar petróleo iraniano e, no segundo, armas.

O próprio movimento na direção de medidas econômicas no lugar da campanha militar já representou um alívio para o Irã, ao indicar, de forma indireta, que uma intensificação dos ataques, incluindo o eventual desembarque de tropas, está suspensa por ora.

O Irã lida com sanções econômicas por causa de seu programa nuclear desde 2006, de maneira que elas não representam uma ameaça ao regime.

A reduzida agressividade nas sanções econômicas, ainda mais depois de promessas de Trump de uma catástrofe sobre o Irã, acaba reforçando a percepção de falta de opções do presidente americano.

Sua margem de manobra política só diminui com a aproximação das eleições de 3 de novembro, que renovarão toda a Câmara e um terço do Senado: segundo as pesquisas, ao menos dois terços dos eleitores não aprovam a guerra, exatamente por causa de seus efeitos econômicos.