Lourival Sant'Anna
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Lourival Sant'Anna

Analista de Internacional. Fez reportagens em 80 países, incluindo 15 coberturas de conflitos armados, ao longo de mais de 30 anos de carreira. É mestre em jornalismo pela USP e autor de 4 livros

Trump aposta na asfixia econômica do Irã para arrancar concessões

Estratégia esbarra no impacto negativo sobre a economia e o humor dos eleitores americanos

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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ordenou um bloqueio naval contra o Irã apostando em duas coisas: o impacto econômico sobre o regime iraniano e uma consequente facilidade maior de arrancar concessões na mesa de negociações. O limite dessa estratégia está no timing do impacto econômico e na maior tolerância à dor dos iranianos do que dos americanos.

Imagine o Estreito de Ormuz como duas avenidas que correm paralelamente e realizam o percurso em forma de V com o vértice para cima, ao longo da passagem marítima. A avenida de cima pertence ao território iraniano; a de baixo são águas internacionais. Ambas têm “pistas” de entrada e saída do Golfo Pérsico.

O Irã exige que os navios utilizem os portos e as pistas que pertencem a seu território, nas quais eles cobram pedágio ou autorizam a passagem de cargas destinadas a aliados como a China. Já os Estados Unidos ameaçam atacar os navios que fizerem isso e exigem que eles passem pelas águas internacionais. O problema é que os iranianos espalharam minas nessas águas, que podem danificar, parar ou até causar a explosão dos navios.

Assim, o bloqueio americano não garante a navegação: ele impede a única que estava ocorrendo, com autorização iraniana. De um lado, isso asfixia a economia do Irã, onde a receita do petróleo representa um terço do orçamento público e metade das exportações.

Por outro lado, retira 1,8 milhão de barris de petróleo do mercado, ou 1,8%, que é o volume da exportação iraniana. Isso pressiona os preços da energia e a inflação em geral, incluindo a americana. Vai na contramão da estratégia anterior de Trump, que suspendeu as sanções contra o petróleo iraniano para aumentar a oferta.

O presidente americano acredita que com isso os iranianos ficarão mais predispostos a fazer concessões. É possível. As negociações estão só começando. Elas foram suspensas em Islamabad no domingo porque os iranianos precisavam consultar outros integrantes da cúpula do regime e temem que os americanos interceptem suas comunicações. Assim, a delegação quis voltar para Teerã. Mas a Turquia protagoniza uma nova iniciativa para que outra reunião seja agendada.

Entretanto, o líder da delegação iraniana, Mohammed Ghalibaf, que preside o Parlamento, postou na rede social X que os americanos sentirão saudade do galão de gasolina a US$ 4 ou US$ 5. É, também, uma posição de negociação. Mas indica uma disposição de testar os limites políticos de Trump.