Trump celebra êxito da trégua em Gaza e cria expectativa difícil de atender
Presidente anuncia um novo Oriente Médio e promete resolver conflito na Ucrânia

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, viveu um dia de justificadas celebrações, diante da trégua selada por Israel e pelo Hamas na Faixa de Gaza. Mas acabou criando expectativas muito difíceis de se materializar, em relação aos conflitos no Oriente Médio e na Ucrânia.
Em seu discurso de cerca de uma hora na Knesset, o Parlamento israelense, Trump afirmou que vivemos “o alvorecer histórico de um novo Oriente Médio”, e que “o longo e doloroso pesadelo finalmente acabou” tanto para israelenses quanto para palestinos.
Com relação aos 28 reféns vivos liberados ontem pelo Hamas e aos cerca de 2 mil presos palestinos soltos por Israel, esse certamente é o caso. A suspensão dos ataques israelenses e a entrada de ajuda humanitária na Faixa de Gaza também representam um alívio extraordinário para os mais de 2 milhões de palestinos que vivem no território.
Aí terminam as certezas. O objetivo do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu de destruir completamente o Hamas não foi atingido. Isso ficou muito claro desde o início da trégua, na sexta-feira.
À medida que as forças israelenses foram se retirando, o grupo palestino reassumiu o controle do território, entrando em confronto com milícias palestinas adversárias armadas pelo Hamas.
No plano de 20 pontos proposto por Trump e aceito pelas duas partes não há detalhes sobre o desarmamento do Hamas. Fala-se na formação de uma força internacional para garantir a segurança do território e de um comitê de tecnocratas palestinos para administrá-lo.
O Hamas, no entanto, impõe como condições para depor armas a retirada total das forças israelenses da Faixa de Gaza e a criação de um Estado palestino. O atual governo israelense rejeita ambas as condições.
Há um consenso de que o fim do conflito só será alcançado com a formação de um Estado palestino viável. Simplesmente não existe território para isso. A Cisjordânia se tornou um mosaico de colônias judaicas em meio a cidades e vilarejos palestinos.
As principais causas do conflito, a ocupação do território palestino por Israel e a violência entre os dois povos, só têm se agravado.
Ainda assim, o dia foi marcado por eventos extraordinários. O presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, participou da assinatura do acordo no Cairo e pousou para a foto com Trump.
Há menos de um mês, Abbas teve bloqueada sua entrada nos Estados Unidos para participar da Assembleia Geral da ONU, em que importantes países europeus e de outras regiões reconheceram o Estado palestino.
No discurso na Knesset, Trump disse que agora focaria no conflito na Ucrânia. No voo para a região, o presidente havia dito aos jornalistas que poderia fornecer mísseis Tomahawk à Ucrânia caso a Rússia não aceitasse um cessar-fogo.
Reportagem do jornal britânico Financial Times, citando fontes do governo americano, revelou que a inteligência militar dos Estados Unidos tem fornecido aos ucranianos informações sobre as posições da defesa antiaérea russa para ajudar a Ucrânia a definir a rota dos drones que atacam os complexos de óleo e gás na Rússia.
A trégua obtida na Faixa de Gaza deixou claro para Trump que para conquistar os acordos de paz que ele deseja é preciso exercer pressão contundente sobre quem está em posição de força. Entretanto, diferentemente do que acontece com Israel, os Estados Unidos não fornecem armas à Rússia, e portanto não têm poder de veto sobre o seu emprego.
No caso do conflito Rússia-Ucrânia, a forma de pressionar é fornecer armas aos ucranianos, e impor sanções aos russos e tarifas contra os países que importam energia deles. Seria mais do mesmo, pois essa era a estratégia do governo anterior, de Joe Biden, e da Europa. Os russos aprenderam a contornar esses meios de pressão.



