Lourival Sant'Anna
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Lourival Sant'Anna

Analista de Internacional. Fez reportagens em 80 países, incluindo 15 coberturas de conflitos armados, ao longo de mais de 30 anos de carreira. É mestre em jornalismo pela USP e autor de 4 livros

Versões divergentes de EUA e Irã refletem interesses políticos internos

Normalização gradual no Estreito de Ormuz prosseguirá, mas sob estresse constante

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As divergências de versões dos governos dos Estados Unidos e do Irã sobre o conteúdo dos compromissos firmados no Memorando de Entendimento e sobre o andamento das negociações refletem as diferenças de interesses políticos em torno do conflito.

A normalização do trânsito de navios no Estreito de Ormuz ocorrerá consequentemente de forma muito gradual, e submetida a retrocessos e a estresse constantes.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse que as negociações seriam retomadas nessa terça-feira em Doha, Catar, o que foi desmentido pelo porta-voz da chancelaria iraniana, Esmaeil Baghaei.

De acordo com o funcionário iraniano, o que poderia haver seriam conversas técnicas sobre a implementação da Cláusula 11 do Memorando, que prevê a liberação de depósitos do Irã congelados.

Como se vê, as duas versões são defensáveis. Essas conversas podem ser chamadas de negociações, mas não substanciais, porque tratam apenas da execução de algo que já foi acordado antes, e não dos temas que ficaram pendentes para essa segunda etapa.

Trump precisa encorajar o mercado e o eleitorado americano com a noção de que o processo avança, depois das ações militares do fim de semana. O governo moderado iraniano, por sua parte, pressionado por setores nacionalistas da Guarda Revolucionária Islâmica, precisa mostrar que não está cedendo.

Segundo o presidente do Irã, Massoud Pezeshkian, já está garantida a liberação de US$ 6 bilhões dos depósitos congelados por sanções americanas em bancos de Doha, o que representa a metade do total. Trump não dá ênfase nesse tipo de concessões econômicas ao Irã, porque as criticou duramente no acordo de 2015 firmado pelo então governo democrata de Barack Obama, e também está sob pressão de correntes de seu próprio Partido Republicano para não ceder.

Essa diferença de interesses políticos internos acaba tendo repercussão sobre o mundo real porque diz respeito também às condições de trânsito no Estreito de Ormuz. O governo americano vendeu o Memorando como sendo um acordo de liberação incondicional do trânsito dos navios. Já o Irã insiste que esse trânsito só está liberado nas rotas na sua costa e na do Irã, e mediante sua autorização.

Essa divergência levou aos ataques militares recíprocos do fim de semana. O Irã atacou navios que navegavam pelas águas internacionais no meio do Estreito. Os EUA atacaram alvos iranianos e o Irã disparou contra alvos americanos no Bahrein e Kuwait.

Além disso, Israel e o Hezbollah também representam fator de estresse sobre o acordo. O ministro da Defesa israelense, Israel Katz, reconheceu que os EUA incluíram o conflito no Líbano no Memorando de Entendimento com o Irã contra a vontade de Israel. Ele advertiu que Israel não vai se retirar do Sul do Líbano e voltará a atacar tanto o Hezbollah quanto o Irã sempre que for atacado por eles.

O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, enfrenta eleições em outubro e é pressionado pela oposição a não ceder soberania aos EUA. O regime iraniano, por sua vez, não pode abandonar o Hezbollah, que se envolveu nessa última guerra contra Israel em defesa do Irã.

Apesar de todos esses obstáculos, os EUA têm interesse na normalização no Estreito de Ormuz e o Irã, nos benefícios econômicos do descongelamento dos depósitos e do levantamento das sanções. Assim, o processo seguirá adiante, com muitos sobressaltos.