Luciana Franco
Blog
Luciana Franco

É editora adjunta da CNN Agro. Foi repórter na Gazeta Mercantil, editora da Globo Rural e colaboradora do Valor Econômico; premiada pelo The Washington Post.

Plano ABC: como o crédito verde transformou o Plano Safra

Iniciativa criada em 2010 se tornou importante instrumento de fomento à competitividade do agronegócio brasileiro

Compartilhar matéria

O Plano ABC (Agricultura de Baixa Emissão de Carbono), operacionalizado atualmente por meio do RenovAgro, se tornou o principal eixo ambiental e climático do Plano Safra.

Quando foi lançado, em 2010, o Plano ABC tinha um objetivo claro: estimular práticas agropecuárias capazes de reduzir as emissões de gases de efeito estufa sem comprometer a produtividade.

Mais de uma década depois, o programa deixou de ser apenas uma política ambiental para se tornar um importante instrumento de fomento à competitividade do agronegócio brasileiro.

À época, o Plano ABC se apresentava como uma resposta aos compromissos climáticos assumidos pelo Brasil na Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas de Copenhague.

Inserido no Plano Safra, ofereceu crédito rural com condições diferenciadas para financiar tecnologias como recuperação de pastagens degradadas, (ILPF) integração lavoura-pecuária-floresta, plantio direto, fixação biológica de nitrogênio, florestas plantadas e tratamento de dejetos animais.

Na prática, o programa ajudou difundir a ideia de que sustentabilidade e rentabilidade podem caminhar juntas.

A recuperação de áreas degradadas aumenta a produtividade, reduz a necessidade de abertura de novas áreas e melhora a eficiência econômica das propriedades. A ILPF, por exemplo, diversifica a renda do produtor e reduz riscos climáticos, enquanto o plantio direto melhora a conservação do solo e da água.

Apesar dos avanços, o Plano ABC enfrentou um desafio recorrente ao longo de sua trajetória: a contratação dos recursos permaneceu, por anos, abaixo do volume disponibilizado pelo governo. Enquanto a expansão das tecnologias foi considerada um sucesso, a execução do crédito ficou aquém do potencial esperado.

Entre os fatores que explicam este desempenho estão a burocracia bancária, o desconhecimento de parte dos produtores, a dificuldade de elaboração de projetos técnicos e, em alguns períodos, a menor atratividade das condições financeiras em relação a outras linhas de crédito rural.

Dados do MAPA (Ministério da Agricultura e Pecuária) mostram que entre 2010 e 2020, o Programa ABC registrou 38,3 mil contratos, R$ 32,27 bilhões em financiamentos; e aproximadamente 10,5 milhões de hectares diretamente financiados pela linha.

Embora o Plano ABC não tenha estabelecido metas específicas para o volume de crédito ou para o número de contratos, o documento original estimava a necessidade de aproximadamente R$ 197 bilhões em investimentos para viabilizar a adoção das tecnologias previstas entre 2010 e 2020.

Desse montante, cerca de R$ 157 bilhões deveriam ser financiados por linhas de crédito. Entretanto, o Programa ABC contratou R$ 32,27 bilhões no período, evidenciando que parte significativa da expansão das tecnologias ocorreu por meio de outras linhas de financiamento e de recursos próprios dos produtores.

De forma geral, a primeira década do Plano ABC foi considerada positiva, uma vez que o programa consolidou a agricultura de baixa emissão de carbono como política pública e contribuiu para que o Brasil cumprisse seus compromissos climáticos no setor agropecuário.

No entanto, as limitações serviram de base para a reformulação da política no Plano ABC+ (2020–2030) e para a criação do RenovAgro, buscando ampliar o alcance do crédito e acelerar a adoção de sistemas produtivos sustentáveis.

Neste novo modelo, que oferece aos produtores que adotam práticas sustentáveis taxas de juros reduzidas para custeio agropecuário, com cortes que chegaram a até 1,0% ao ano no Plano Safra 2025/26, a agenda climática deixou de ser apenas uma exigência internacional para se tornar uma necessidade econômica diante da maior frequência de secas, ondas de calor e eventos extremos.

A mudança buscou modernizar o programa e ampliar seu escopo, mantendo o foco no financiamento de sistemas produtivos sustentáveis e na redução das emissões de carbono no setor agropecuário.

O RenovAgro passou a financiar investimentos destinados a recuperação de pastagens; agricultura de precisão; energia renovável na propriedade rural; manejo sustentável de florestas; sistemas integrados de produção; irrigação eficiente; adequação ambiental; e tecnologias de baixa emissão de carbono.