Luciana Franco
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Luciana Franco

É editora adjunta da CNN Agro. Foi repórter na Gazeta Mercantil, editora da Globo Rural e colaboradora do Valor Econômico; premiada pelo The Washington Post.

Queda do preço açúcar e alta do petróleo favorecem etanol brasileiro

Em 2026 consumo no mercado interno pode passar de 21,2 bilhões para 24,2 bilhões de litros do biocombustível

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O mercado mundial de açúcar deve enfrentar novos déficits de oferta nas próximas duas safras, enquanto a instabilidade geopolítica e a alta do petróleo reforçam o papel estratégico dos biocombustíveis. A avaliação foi apresentada pelo presidente da Datagro, Plínio Nastari, durante a 10ª Abertura de safra cana, açúcar e etanol, conferência que reúne o setor sucroenergético em Ribeirão Preto (SP) essa semana.

Segundo levantamento da consultoria, que acompanha dados de 122 países, o balanço global de açúcar no ano comercial 2025/26 deve registrar déficit de 800 mil toneladas. Para 2026/27, o desequilíbrio entre oferta e demanda pode chegar a 2,7 milhões de toneladas.

As estimativas foram feitas de forma conservadora e consideram crescimento muito modesto do consumo global — de 0,1% em 2025/26 e 0,35% em 2026/27.

Mesmo assim, o cenário pode se apertar ainda mais caso se confirmem revisões negativas para a produção da Índia, um dos principais produtores mundiais. A safra do país, inicialmente projetada acima de 32 milhões de toneladas, pode terminar abaixo de 30 milhões de toneladas.

Preços pressionados no mercado internacional

Apesar das perspectivas de déficit, os preços internacionais do açúcar seguem pressionados. O contrato futuro negociado em Nova York está na faixa de 14,3 a 14,4 centavos de dólar por libra-peso.

Convertido para moeda brasileira, o açúcar destinado à exportação está próximo de R$ 1.700 por tonelada, cerca de 37,5% abaixo do nível registrado no mesmo período do ano passado e 32,5% inferior à média dos últimos cinco anos.

Entre os fatores que ajudam a explicar essa queda estão a forte posição vendida de fundos especulativos e as incertezas do mercado global.

Etanol ganha espaço no mix das usinas

No Brasil, a relação de preços tem favorecido a produção de etanol. O hidratado ao produtor em São Paulo gira em torno de R$ 3,00 por litro, enquanto o anidro chega a R$ 3,29 por litro.

Além disso, estimativas do setor apontam que a gasolina nas refinarias brasileiras está com defasagem superior a 30% em relação ao mercado internacional, enquanto o diesel teria diferença de cerca de 35%.

Esse cenário tende a incentivar um mix de produção mais alcooleiro nas usinas, com maior direcionamento da cana para biocombustíveis.

Consumo interno segue forte

Mesmo com momentos de perda de competitividade frente à gasolina, o consumo de etanol hidratado no Brasil tem se mantido resiliente, em torno de 1,6 bilhão de litros por mês.

Para 2026, a projeção é de aumento significativo: o consumo pode passar de 21,2 bilhões para 24,2 bilhões de litros, impulsionado pela expansão da frota flex e pela recuperação da competitividade ao longo da safra.

Hoje, cerca de 45,6% da gasolina consumida no país é substituída por etanol em equivalência energética — índice muito superior ao de outros países.

Estados como Mato Grosso e São Paulo lideram esse movimento, com taxas de substituição de 67,2% e 58,9, respectivamente.

Geopolítica reforça importância dos biocombustíveis

A guerra no Oriente Médio e as restrições ao transporte marítimo na região do Estreito de Ormuz também têm impacto nas perspectivas do setor energético.

Segundo especialistas, momentos de instabilidade global tendem a reforçar a importância de combustíveis produzidos localmente, como os biocombustíveis.

Além do transporte rodoviário, o etanol começa a ganhar espaço em novos mercados, como combustíveis marítimos e de aviação.

A demanda potencial é significativa: apenas uma grande companhia global de navegação poderia consumir até 3 bilhões de litros de etanol por ano para abastecer navios com motores capazes de operar com biocombustíveis.

Brasil segue como referência mundial

Apesar do crescimento da produção em outros países, o Brasil continua sendo o principal exemplo de substituição de combustíveis fósseis por biocombustíveis.

Atualmente, o etanol brasileiro substitui cerca de 531 mil barris de petróleo por dia, reforçando seu papel estratégico tanto para segurança energética quanto para redução de emissões.