Candidato que lidera pesquisas na Bolívia é crítico do Mercosul e do Brics
Ex-presidente Tuto Quiroga, que segundo pesquisas tem maior intenção de votos para segundo turno deste domingo, chama bloco regional de “prisão comercial”
O ex-presidente Jorge “Tuto” Quiroga, que segundo as últimas pesquisas tem a maior intenção de votos para o segundo-turno das eleições presidenciais da Bolívia deste domingo (19), é um crítico do formato comercial do Mercosul, bloco ao qual o país se incorporou no ano passado.
Em entrevista à CNN em agosto, Quiroga, da Aliança Liberdade e Democracia (Libre), afirmou que o Mercosul é uma “prisão comercial” e “muito protecionista”.
“Da parte comercial não me interessa participar, porque é entrar numa prisão comercial na qual você precisa aumentar taxas externas. É muito protecionista. Eu quero diminuir as taxas, fazer acordos de livre comércio com a Europa, com a Ásia, como o Chile e o Peru fizeram”, disse.
Quiroga defende o livre comércio e a isenção de tarifas à importação. Ele também afirma que atuará para promover novos acordos de livre comércio e tratados bilaterais.
O Mercosul, no entanto, aplica uma Tarifa Externa Comum a produtos importados de países externos ao bloco. Além disso, não permite a assinatura de acordos de livre comércio sem que todos os membros da união aduaneira estejam na negociação.
Em seu programa de governo, o ex-presidente afirma ser “melhor encarar o comércio exterior de maneira individual como país para obter vantagens” na exportação.
Já o candidato Rodrigo Paz, senador e ex-prefeito do Partido Democrata Cristão, defende o mecanismo regional. “Não nego as relações com diferentes âmbitos de interesse para a Bolívia. Por exemplo, no caso do Mercosul, o ‘Tuto’ nega essa relação, vai rejeitá-la. No nosso caso, tudo o que está ligado a uma lógica de fronteiras na Bolívia é uma questão fundamental”, expressou, também em entrevista à CNN.
O senador, no entanto, propõe reduzir tarifas de importação unilateralmente, o que também não estaria de acordo com a Tarifa Externa Comum do bloco.
Apesar de ter aderido ao Mercosul, a Bolívia ainda não se adequou a todas as normativas do bloco e ainda não integra a união aduaneira.
Brics
Quanto ao Brics, bloco de países emergentes formado por Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã, do qual a Bolívia é Estado Associado, Quiroga afirmou em agosto ao jornal Folha de S. Paulo não ter interesse em participar “de numa cúpula cuja ideia é criticar os Estados Unidos”.
Ele também disse que nunca estaria alinhado a países como o Azerbaijão e o Qatar. Os países citados por ele não integram o bloco, mas o Azerbaijão solicitou adesão no ano passado.
Já Rodrigo Paz afirmou ao veículo Sputnik que os Brics são um "cenário positivo que não se deve deixar de lado".
Caráter ideológico
Para o sociólogo político Franco Gamboa, docente Fullbright de La Paz, Quiroga considera que os compromissos assumidos com o Mercosul colocariam a economia boliviana em risco, e é cético sobre os benefícios imediatos que o país poderia receber.
Segundo o analista, a entrada da Bolívia no mecanismo foi decidida sem muita análise de como o país poderia se beneficiar do bloco.
Porém, Gamboa avalia que a postura de Quiroga também marca uma diferença ideológica e política em relação ao governo do atual presidente.
“Jorge Quiroga considera que todos os esforços de inserção internacional do Luis Arce são inúteis. Então, rejeitar que a Bolívia continue no Mercosul também é rejeitar de maneira plena e muito clara a política exterior de Luis Arce”, explica à CNN.
A posição quanto ao Brics responde à mesma lógica. “Ele considera que a aproximação de Arce com o Brics foi retórica e ideológica, e que o alinhamento com o Socialismo do Século 21, o apoio à Nicarágua e à Venezuela é totalmente negativo. O Brics não criticou, não fez nada para a transição democrática da Venezuela e ele expressou isso várias vezes”, diz.



