Trump ajuda ou prejudica Milei em eleições? Especialistas respondem
Governo americano atuou contra desvalorização do peso, mas declarações de Trump geraram tensão na Argentina

Consideradas cruciais para que o presidente Javier Milei consiga aprofundar suas políticas econômicas, as eleições legislativas deste domingo (26) na Argentina acontecem com um envolvimento inédito do governo dos Estados Unidos na economia do país sul-americano.
Além de assinar um acordo de swap — troca de moedas — de US$ 20 bilhões com o Banco Central da Argentina, o Tesouro dos Estados Unidos comprou um saldo estimado de US$ 2 bilhões em pesos argentinos, segundo consultorias locais, para evitar uma desvalorização da moeda local antes do pleito.
Além da intervenção direta no mercado de câmbio, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, enfatizou seu envolvimento com a política local ao afirmar que o apoio financeiro estava condicionado à vitória de Javier Milei.
Depois, em resposta a uma jornalista, afirmou que a ajuda financeira é importante porque os argentinos estariam “morrendo”.
Analistas consultados pela CNN, no entanto, colocam em dúvida se o apoio declarado do republicano terá impacto positivo para Milei.
O governo argentino teve que esclarecer as declarações de Trump, afirmando que ele não deixará de apoiar o país nos dois anos finais do atual mandato, independente do desempenho do partido governista nas eleições.
Para Pablo Touzón, diretor do instituto de pesquisa Escenarios, a busca de socorro financeiro não contribui com a imagem de uma economia sólida.
“A ideia de ir com urgência para os Estados Unidos para que te deem dinheiro não produz a sensação de estabilidade, principalmente porque a Argentina já teve tantos resgates, que a percepção popular é que isso não acaba bem”, explica.
Touzón dá como exemplo uma experiência pessoal. Ao tomar conhecimento da compra de pesos pelo secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, a mãe do cientista político reagiu, afirmando: “Se ele quiser que compre pesos, eu continuarei comprando dólares”.
A moeda norte-americana é historicamente o refúgio do argentino para proteger suas economias diante das sucessivas crises financeiras do país e perda do valor da moeda local.
Touzón considera, no entanto, o “voto do medo” de que a situação econômica piore ainda mais sem o apoio dos EUA poderia jogar a favor do partido de Milei no pleito.
Lara Goyburu, diretora executiva do instituto Managment & Fit, defende que “os argentinos gostam muito dos Estados Unidos para viajar, mas não de que se metam na política interna”.
Ela, porém, reconhece que qualquer sinal de estabilidade futura, “independente da origem”, pode ser bem visto por jovens que cresceram vendo o país sair de uma crise e entrar em outra, e escutando seus pais reclamarem da economia.
“Temos que prestar atenção nisso quando pensamos no papel dos Estados Unidos na política argentina”, pontua.
Camilo Tiscornia, diretor da consultoria C&T Asesores Económicos, afirma que os anúncios de Bessent, de que haveria ajuda do Tesouro dos EUA à Argentina, conseguiram acalmar a tensão gerada no mercado financeiro após a derrota do partido governista para o peronismo nas eleições legislativas da província de Buenos Aires, no começo de setembro.
“Essas antecipações de que haveria mais dólares na economia argentina ajudaram na recuperação da confiança e a conter a situação, apesar de ainda haver tensão sobre o que pode acontecer após as eleições deste domingo”, diz.
Mas, paralelamente à melhora, o condicionamento imposto por Trump para a ajuda financeira geraram desconfiança, dado que Milei ainda tem dois anos de governo pela frente e precisará do apoio dos EUA, caso perca ou ganhe as eleições legislativas de hoje.
Tiscornia cita a melhora, em outubro, do Índice de Confiança do Consumidor medido pela Universidade Torcuato Di Tella, uma das mais prestigiosas da Argentina.
O índice teve uma melhora de 6,3% em relação a setembro, após uma forte queda em agosto.
"É preciso diferenciar o mercado financeiro do grosso da população. Essa pesquisa indica o que o cidadão comum sente, e uma mostra de que o que foi feito em outubro ajudou e que há um pouco mais de calma”, conclui o economista.
O mercado financeiro, por sua vez, continua desconfiado acerca do que acontecerá com a cotação do peso, hoje flutuante entre bandas cambiais, que o governo garante que manterá após as eleições.



