Lucinda Pinto
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Lucinda Pinto

Jornalista de economia e negócios há mais de três décadas. Passou pelas redações de O Globo, Agência Estado, Valor Econômico e InvestNews.

É a commodity: Agro e petróleo sustentam crescimento do PIB

Economia brasileira supera países desenvolvidos no segundo trimestre, mas consumo das famílias recua e indústria de transformação perde força

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O PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro do segundo trimestre não apenas surpreendeu positivamente o mercado como também conseguiu superar o desempenho de algumas das principais economias mundiais.

O Brasil cresceu 0,5% em relação ao trimestre anterior, acima da projeção de 0,4%. O resultado ficou em linha com a média da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) e da União Europeia, ambas com alta de 0,5%; e superou Estados Unidos e Reino Unido, que cresceram 0,4%; Japão, com 0,3%; Alemanha, com 0,2%; e o conjunto dos países do G7, com 0,3%.

Na comparação com o segundo trimestre do ano passado, o PIB brasileiro avançou 2%.

Mas a manchete positiva esconde uma composição bastante desigual. O crescimento está sendo sustentado principalmente pelos setores ligados às commodities. A agropecuária avançou 2,8% no trimestre, enquanto a indústria extrativa, puxada especialmente pelo petróleo, cresceu 3,4%.

O resultado da indústria como um todo, porém, foi bem mais fraco: alta de apenas 0,1%. Isso aconteceu porque o bom desempenho da extração mineral foi praticamente anulado pela queda de outros segmentos. A indústria de transformação recuou 0,4%, a construção caiu também 0,4%, e o segmento de eletricidade, gás, água e gestão de resíduos teve retração de 1,1%.

Portanto, não é a indústria brasileira como um todo que está puxando o PIB. É especificamente a indústria extrativa. A parcela da indústria mais ligada ao mercado interno, ao crédito e ao investimento continua perdendo força.

Quando olhamos para a demanda, a fotografia também é menos favorável. O consumo das famílias caiu 0,4%, depois de ter crescido 0,8% no primeiro trimestre. É um sinal claro de perda de fôlego da economia doméstica, mesmo com o mercado de trabalho ainda aquecido.

Os juros elevados, o endividamento e a inadimplência estão limitando a capacidade de consumo das famílias. É justamente nesse ponto que começam a aparecer, de maneira mais clara, os efeitos defasados da política monetária.

O investimento ainda cresceu 1,2%, mas desacelerou fortemente diante da alta de 3,4% registrada no primeiro trimestre. Além disso, a taxa de investimento caiu para 16,1% do PIB.

José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do Banco Fator, afirma que esses números revelam “o estrago do custo de capital e da incerteza”, agravado também pelo baixo investimento do setor público.

Ou seja: os juros elevados não reduzem apenas a atividade atual, mas também restringem a capacidade de crescimento futuro da economia.

Arnaldo Lima, da Polo Capital, faz uma leitura um pouco mais positiva da composição do resultado. Segundo ele, “a composição do PIB reforça uma leitura positiva para o crescimento, sem indicar aumento relevante das pressões inflacionárias”. Isso porque a demanda interna está perdendo força, enquanto a expansão é sustentada por setores menos sujeitos aos efeitos dos juros.

Portanto, o PIB cresceu e superou ligeiramente as expectativas, mas não é um crescimento disseminado pela economia. É um resultado sustentado principalmente pelo agro e pela extração de petróleo.

Enquanto isso, o consumo das famílias, a construção, a indústria de transformação e o investimento mostram os efeitos dos juros elevados.

A frase que resume esse PIB é: o Brasil continua crescendo, mas o crescimento está concentrado nas commodities. A economia voltada para o mercado interno já perdeu bastante velocidade.

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