"Trava" a partidos para acionar STF pode violar isonomia, dizem ministros
Magistrados avaliam que legitimidade de entrar com ações na Corte deve ser de todos ou de nenhum
Ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) veem possível violação à isonomia na proposta de se estabelecer um mínimo de representatividade para que partidos possam entrar com ações na Corte.
A medida tem sido defendida pelo presidente do Senado Federal, Davi Alcolumbre (União-AP), como forma de diminuir a judicialização das leis aprovadas no Congresso Nacional. O tema deve ser levado à reunião de líderes na quinta-feira.
Atualmente, todas as legendas com representação no Congresso - mesmo que seja de um único deputado ou um único senador - estão aptas a questionar no STF a constitucionalidade de leis.
Para Alcolumbre, “esse é um problema seriíssimo” no Brasil. “Todo mundo pode acessar o Supremo e depois ficam as críticas aqui em relação às decisões do Poder Judiciário brasileiro”, disse ele em sessão plenária na semana passada.
Nos bastidores do Congresso, a iniciativa está sendo interpretada como uma resposta à ação ajuizada pelo Psol contra a derrubada do decreto do governo que aumentou as alíquotas do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras).
Já nos corredores do Supremo, ministros veem com receio a imposição de uma “cláusula de barreira” que precisará ser superada pelas legendas para torná-las habilitadas a acionar a Corte.
O discurso tem sido na linha de “ou todos, ou nenhum” - ou seja, o Congresso poderia retirar 100% da legitimidade dos partidos, mas não estabelecer um critério segundo o qual uns podem e outros não.
Os ministros citam como precedente recente a decisão do Supremo sobre as chamadas “sobras eleitorais”. A Corte declarou inconstitucional a lei que estabelecia um quociente eleitoral mínimo para que um partido pudesse entrar no “rateio” das vagas.
Houve maioria no sentido de que a legislação violava o pluralismo político e a soberania popular, na medida em que beneficiava os grandes partidos e prejudicava, por consequência, as agremiações menores.
Essa lógica também poderia guiar as discussões jurídicas em torno da proposta de Alcolumbre. As críticas têm unido legendas de espectros políticos opostos, como o PSOL e o Novo, que têm bancadas reduzidas, mas são bastante ativas no Judiciário.
Entretanto, há dúvidas no Supremo sobre em que medida uma PEC (Proposta de Emenda à Constituição) nesse sentido poderia violar cláusula pétrea a ponto de poder ser eventualmente derrubada.
Também não está claro se no texto de Alcolumbre haverá alguma restrição aos demais “atores” que hoje podem acionar o Supremo, como entidades de classe e a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil).
Segundo informações do portal “Corte Aberta”, do STF, partidos políticos foram autores de quase 30% das ações ajuizadas no tribunal contra atos do Congresso Nacional, perdendo apenas para as associações representativas (49%).
A PGR (Procuradoria-Geral da República) - que até a Constituição de 1988 era a única a poder acionar o Supremo contra o Congresso - é responsável por 10%. A OAB, por 3%. Já o governo federal é autor de menos de 1% das ações.



