Márcio Gomes
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Márcio Gomes

Jornalista com mais de 30 anos de carreira, foi correspondente internacional e apresenta o CNN Primetime - mas sem deixar de fazer o que mais gosta, ir pra rua contar histórias!

Não há espaço para distrações

Um mundo cada vez mais conectado nos oferece um enorme cardápio de assuntos e acabamos perdendo a noção do que realmente importa

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Donald Trump pode querer tomar a Groenlândia, a inflação dos alimentos está em alta, Neymar merece ou não voltar para a Seleção. Assuntos que fatalmente ganham as manchetes, de veículos (como esta página) e de repórteres (como este que escreve), necessitados que somos de visibilidade e de leitura. Vivemos disso.

Realmente, os assuntos são pertinentes. Mexem com as pessoas, geram debate, ajudam a mostrar para onde nossa sociedade está caminhando. O problema, neste momento, não é sobre o que é publicado, mas o que deixa de ser… e a falta que isso faz.

Neste momento, em algum lugar do mundo, tem um fazendeiro perdendo sua plantação depois da mudança no regime das chuvas; algum idoso está sofrendo com a desidratação por causa de mais uma onda de calor - e vai morrer por isso; casas estão sendo levadas por um tufão com força jamais vista. Sempre foi assim. Mas não me diga que você não percebeu uma aceleração desses eventos extremos. De situações difíceis de escapar, angustiantes, da natureza em fúria, apesar de todo nosso “avanço tecnológico”.

Nem tudo a inteligência artificial pode mudar. E já estamos percebendo isso.

Este é o cenário que o planeta vive hoje. E assim como no dilema que enfrentamos com as redes sociais e a perda de foco, não estamos conseguindo enxergar o que é mais importante. Já estamos atrás de todas as previsões mais sombrias de elevação da temperatura, com os impactos previstos se tornando realidade: citando apenas dois, a perda da biodiversidade na terra e no mar e o degelo de enormes massas, seja nos polos da Terra ou nas mais elevadas montanhas.

O medo é que isso seja consciente. Sabemos dos riscos, mas não estamos dispostos aos sacrifícios para mudar. O consumo desenfreado, o dirigir para ir até a padaria, o banho prolongado com água quentinha. Confortos que nos condenam. Simples assim.

É quando entram as distrações. A valorização de outros assuntos que não dependem da gente. O driblar a realidade, mesmo que para isso precisemos aumentar a potência do aparelho de ar condicionado. O “fingir que não é comigo”, enquanto outros sentem na pele o que é ser tocado pelo clima extremo.

A COP30 será uma chamada de consciência. Todas as COP’s, na verdade, são. Mas esta, no Brasil, com a potencialidade que temos para sair na frente nesse mundo novo, pode ser um estímulo a mais para a mudança. Para a ação.