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    Márcio Gomes

    Márcio Gomes

    Jornalista com mais de 30 anos de carreira, foi correspondente internacional e apresenta o CNN Primetime - mas sem deixar de fazer o que mais gosta, ir pra rua contar histórias!

    Lembrar ou remoer: o que significa não marcar os 60 anos do Golpe de 1964?

    Portugal e Argentina, que também tiveram seus tempos antidemocráticos e de barbárie, preservaram seus centros de tortura, os transformando em museus

    Lembrar ou remoer: o que significa não marcar os 60 anos do Golpe de 1964?
    Lembrar ou remoer: o que significa não marcar os 60 anos do Golpe de 1964?

    Quem passa pelo conjunto de prédios baixos na rua Tutóia, 921, na Vila Mariana, em São Paulo, talvez não lembre ou sequer imagine. Mas ali, onde hoje funciona uma delegacia de polícia, foi durante a ditadura militar um local dedicado à prática da tortura. Origem de dor, desaparecimento e morte daqueles considerados “inimigos” do regime.

    Era a sede do DOI-Codi (Destacamento de Operações e Informações do Centro de Operações e Defesa Interna) na capital paulista. Nosso CNN Prime Time produziu e exibiu reportagem especial nana última quarta-feira (27): o analista de Política Pedro Venceslau e a editora Camilla Salles estiveram lá recontando as histórias, ouvindo sobreviventes.

    Acho que fizemos o que o presidente Lula chamou de “remoer o passado” – ao justificar que o Governo Federal não marcaria a data e que os militares em seus quartéis não fariam a tradicional Ordem do Dia na lembrança dos 60 anos.

    Para quem ainda espera por justiça por aqueles tempos, vergonha. Houve mortes. Ainda há desaparecidos.

    Para quem sabe como outros países com histórias parecidas relembram esses momentos, decepção.

    Portugal e Argentina, que também tiveram seus tempos antidemocráticos e de barbárie, preservaram seus centros de tortura, os transformando em museus. Nossa correspondente em Buenos Aires, Luciana Taddeo, foi até o prédio da Esma (Escola Superior de Mecânica da Armada).

    Lá, recentemente, foi reformado e está exposto um dos aviões que faziam os voos da morte – os opositores eram embarcados desacordados e lançados ao mar. Fora os filhos de opositoras que nasciam na prisão e eram tomados, repassados para novos pais.

    Aqui no Brasil, alguns podem dizer, não fomos tão longe… Quem fala isso não esteve no prédio da Tutóia, com memórias do tipo: tão assustadora quanto a grande sala do segundo andar (grande o suficiente para caber um pau-de-arara, dos instrumentos mais conhecidos para extrair informações), eram as escadas que davam acesso ao local.

    “Todos os que passaram por aqui lembram das escadas, da cor das escadas, levando para a sala de interrogatório e tortura, onde a violência ocorria”, contou Maurice Politi, um dos sobreviventes.

    Há 60 anos, uma grande noite começava no nosso país. E fica agora a preocupação de que, mesmo anos depois de termos retornado aos tempos democráticos, a ditadura ainda não esteja tão distante assim. Por que o presidente Lula teme melindrar os militares? Até que ponto nossa democracia está firme e pronta para enfrentar novos desafios? Qual a insegurança que o presidente sente em marcar a data e rememorar o que ainda causa desconforto, pois não foi devidamente cicatrizado?

    Certamente, o medo não é maior do que sentiam aqueles que subiam as escadas para o segundo andar do discreto prédio da rua Tutóia.