
A COP30 como inspiração
Se o mundo vai olhar para a floresta - e você está longe dela - não tem problema: cuide do seu rio, da sua calçada e da sua praça

Quase três mil quilômetros separam Belém de São Paulo, mas isso não impede que os temas a serem debatidos na Conferência influenciem propostas para o bem dos paulistanos. Tudo nasceu com pesquisadores da USP, percebendo que as discussões sobre mudanças climáticas deveriam ser trazidas para as cidades.
Afinal, se o nosso regime de chuvas é regido pela floresta, é nas cidades onde já sentimos os efeitos dos temporais arrasadores - cada vez mais comuns. “Não é competir nas importantes discussões sobre Amazônia, o foco que estabelecemos é o mundo urbano e suas questões”, explica o professor Marcos Buckeridge, do Instituto de Biociências da universidade.
Daí criou-se um grupo de trabalho na secretaria do Clima, da prefeitura de São Paulo, juntando autoridades e representantes da academia para desenvolver um conjunto de atividades e eventos. A ideia é tocar as pessoas, fazê-las enxergar melhor os desafios que precisam ser enfrentados e as ferramentas disponíveis para isso.
A tecnologia é apenas uma delas. E fica claro perceber a vantagem de ter gente da melhor universidade do país pensando a cidade. Mais uma vez, citando as chuvas torrenciais: a cada uma delas, centenas de árvores, por todos os bairros, vão ao chão. Prejuízo duplo, pois perde-se cobertura vegetal e é um risco de vida para os moradores.
Daí veio a ideia de aperfeiçoar uma das ações que cuidam ou condenam uma árvore: a poda. Se o corte dos galhos for mal feito, desequilibra o conjunto e aquela figueira que sobreviveu 50, 100 anos, se vê enfraquecida para resistir a um vento mais forte. Pesquisadores da USP desenvolveram uma técnica que, depois de escanear a árvore e criar um modelo 3D, aponta troncos e galhos que podem ser podados com segurança.
E se a COP é só em novembro, desde já eventos estão sendo organizados em São Paulo para levantar as discussões. Entre elas:
- Agricultura e os impactos sofridos pelas mudanças climáticas (a inflação de alimentos é só um deles);
- Oceanos, com foco na poluição e na conscientização dos perigosos microplásticos;
- Desastres, incluindo aí a poluição do ar e como as queimadas no norte do Brasil chegam até o paulistano pela fuligem que se respira.
Por vezes, os debates vão ocorrer em torno de assuntos que pouco se relacionam com a causa ambiental, como os tribunais de contas: a forma de gastar dinheiro deverá ser diferente. Se numa concorrência tradicional fiscalizada pelos tribunais se buscam três orçamentos e vence o menor, o foco da sustentabilidade exige outra matemática. Como é feito aquele produto? Tem menor impacto ambiental? Novos produtos, tecnologia diferente. E, por vezes, isso custa mais caro. O poder público terá que incentivar essa nova indústria, subsidiando-a.
Segundo o professor Buckeridge, está sendo fácil conseguir apoios para colocar essas discussões de pé. A marca COP30 é forte, o fato de ser no Brasil ajuda muito e, por mais que ainda tenhamos distrações e focos dispersos agora, a partir do segundo semestre um número cada vez maior de pessoas vai se voltar para os temas da Conferência. Manter esse interesse todo no próximo ano é que poderá ser difícil. “Apenas um ano de discussões não motiva, não conscientiza a todos”, admite o cientista. “O trabalho vai ser continuar desenvolvendo uma cultura ambiental”.



