Mari Palma
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Mari Palma

Sou jornalista, com pós em moda, neurociência e comportamento. Também sou embaixadora da Marvel, fã de Friends e Beatles, 4 vezes tia e mãe de cachorro

Terapia e rock 'n roll: Rodrigo Lima e Badauí refletem sobre saúde mental

Do hardcore dos anos 1990 à necessidade de discutir nas redes sociais, Rodrigo Lima (Dead Fish) e Badauí (CPM 22), se orgulham de serem os "cinquentões" do rock

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A amizade entre as bandas CPM 22 (SP) e Dead Fish (ES) começou em meados dos anos 1990, por cartas, onde a banda paulista, no início da carreira, mandava demos para a banda capixaba, que ajudava os “novos artistas” a se colocarem na cena underground. 

No Na Palma da Mari, os artistas refletiram sobre a diferença entre “fazer música” hoje e há 30 anos. “As plataformas trouxeram uma cultura de single forte, de lançar singles buscando a viralização do single e não muito pensando como obra”, ponderou Badauí. 

“Não é papo saudosista, mas a gente que vem de outra geração gosta de fazer discos, trabalhar no disco - porque acho que o disco reflete muito o que a banda viveu do último trabalho para o atual”.

Os artistas são referência no hardcore nacional até hoje, ainda que tenham seguido caminhos diferentes em algum momento da trajetória - e, portanto, conquistado públicos diferentes entre os anos 1990 e 2000, e que hoje são os pais que levam os filhos nos shows.

“Mesmo quando o CPM 22 estava andando por lugares que a gente, do Dead Fish, nem queria estar, eu nunca vi como competição. São só caminhos diferentes. Mas o sentimento alternativo ainda corre na nossa veia”, disse Rodrigo sobre as escolhas entre o mainstream e o “underground” que cada banda seguiu.

Saúde mental no rock: papinho ou é coisa séria?

A maturidade - da estrada, idade e experiências na vida - trouxe uma abertura para temas que, de forma generalizada, não costumam ser discutidos entre homens (e muito menos entre músicos do hardcore). 

Falar sobre saúde mental nunca foi um assunto “transparente” no hardcore e Badaui reconhece que, mesmo nunca tendo feito terapia, sabe como ela ajuda muita gente.

Apesar disso, o paulista reconhece que, “quando chega no final de semana depois de três shows, ali na segunda-feira, dá um vazio… Você tem que se centrar. Pensar e tentar mentalizar coisas positivas. Mas é, realmente, uma coisa que às vezes não está no seu controle.”

Rodrigo, por outro lado, que já fez anos de terapia e retomou as sessões recentemente, já passou por situações de ataques de pânico e ansiedade, de sentir até mesmo no físico.

Com a ansiedade ou vazio, uma coisa é certa: a rotina de antigamente não encaixa mais no presente - ou na categoria “cinquentões do rock”. 

Após 30 anos entre cabos, amplificadores e muitos zines, Rodrigo e Badauí seguem na estrada com suas bandas. A diferença é na rotina que, agora, “proíbe” um ritmo caótico como o de antes. 

Agora, pelo menos, a atitude mais rock ‘n roll que eles têm é, justamente, cuidar da saúde. Enquanto Rodrigo adotou uma dieta vegana, Badauí segue com o apelido de "Badawhiskey", mas praticando esportes e se alimentando bem.

Música com posicionamento: quando arte é também política

Ao longo dos anos, os dois vocalistas nunca esconderam seus posicionamentos políticos - e continuam acreditando que arte e opinião caminham juntos. Rodrigo, que cresceu no punk, falou sobre o preço de ser um artista politizado num cenário muitas vezes hostil a vozes dissonantes - e para ele, tudo bem, porque as portas que tinham se fechado, se trancaram de vez.

“Pessoalmente, acho que a arte tem que ter um posicionamento. Não só o punk, não só o rock, não só o rap. Todo mundo tem que assumir, porque a arte tem que ser uma coisa para todo mundo. Tem que ser libertadora de todo mundo”, disse o vocalista do Dead Fish.

“Eu acho que a arte e a música, em todo o espectro de existir só para ser uma commodity, só para ser um produto, deixa de ser arte. A arte é para você refletir, para você se mudar. Se não mudar o mundo, você se mudar. Tem um monte de gente ali que está monetizando e só. E isso não interessa para o planeta”.

Badauí também defende o debate como base de uma sociedade mais justa. Para ambos, a arte que se limita a ser produto - sem reflexão, sem incômodo - deixa de cumprir seu papel mais essencial: de provocar, libertar e transformar.

Na Palma da Mari

No programa, Rodrigo e Badauí também falaram sobre família, fama, e até o fim do mundo. Confira o episódio completo:

https://youtube.com/live/e7y121aepqk?feature=share

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