Mariana Janjácomo
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Mariana Janjácomo

Correspondente em Washington, Mariana Janjácomo é mestre em jornalismo pela New York University e morou por cinco anos em Nova York antes de se mudar para a capital americana e acompanhar de perto todas as movimentações do governo federal.

“Imprudente”, diz Kamala sobre tentativa de reeleição de Biden em livro

Em “107 Days”, Kamala Harris relembra curto período de campanha, faz "mea culpa" sobre derrota em 2024 e desabafa sobre falta de apoio da Casa Branca

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“‘A decisão é de Joe e Jill (esposa de Joe Biden)’. Todos nós repetiamos isso como um mantra, como se estivéssemos hipnotizados. Foi um ato de nobreza ou imprudência? Em retrospecto, eu acho que foi imprudência.” É assim que a ex- vice-presidente e ex-candidata democrata à presidência dos Estados Unidos, Kamala Harris, se refere à decisão do ex-presidente Joe Biden de concorrer à presidência mais uma vez em 2024.

“O que estava em jogo era grande demais. Essa escolha não deveria ter sido tomada com base no ego ou na ambição alguém. Deveria ter sido mais do que uma decisão pessoal”, escreve Harris em “107 Days” (“107 Dias”, em tradução livre), livro nomeado a partir de seu curto período de campanha presidencial.

O livro chega às lojas em 23 de setembro nos Estados Unidos, e tem surpreendido a imprensa americana com as revelações feitas por Harris sobre arrependimentos relacionados às últimas eleições e até mesmo sobre a falta de apoio que sentia por parte da Casa Branca.

A postura da ex-vice-presidente sempre foi marcada pela lealdade a Biden, inclusive durante o período em que democratas faziam pressão para que ele desistisse da corrida eleitoral.

A preocupação com a saúde de Biden e os pedidos para que ele abandonasse a corrida aumentaram depois do debate da CNN de junho de 2024.

“Eu sou uma pessoa leal. Durante todos os meses de pânico crescente, eu deveria ter dito a Joe para considerar sair da disputa? Talvez (…) E de todas as pessoas na Casa Branca, eu estava na pior posição para defender que ele saísse. Eu sabia que, para ele, soaria extremamente interesseiro se eu o aconselhasse a não concorrer. Ele veria isso como ambição pura, talvez até como uma deslealdade venenosa, mesmo que minha única mensagem fosse: ‘não deixe o outro cara vencer’”, relata Harris no livro.

Em outro trecho, Kamala revela que se sentia desamparada pela equipe da Casa Branca em momentos de ataques da oposição. Ela ainda afirma que a equipe de Biden nunca deu destaque suficiente a suas conquistas.

“A lógica deles era de soma zero: se ela está brilhando, ele se apaga. Nenhum deles entendeu que se eu fosse bem, ele ia bem. Que considerando as preocupações sobre a idade dele, meu sucesso visível como vice-presidente era vital. Isso serviria como prova de seu bom senso ao ter me escolhido e uma garantia de que o país estaria em boas mãos se algo acontecesse. Meu sucesso era importante para ele. A equipe dele não entendeu isso.”

Apesar de todas as críticas, Harris nega a ideia de que houve um esquema da Casa Branca e dos democratas para encobrir a piora das condições de saúde de Biden, como alegam ao menos dois livros publicados nos EUA neste ano.

“Muita gente quer inventar uma narrativa de que houve uma grande conspiração para esconder a fragilidade de Joe Biden. Aqui está a verdade como eu a vivi. Joe Biden era um cara inteligente, com muita experiência e convicção profunda, capaz de cumprir os deveres de presidente. No seu pior dia, ele ainda tinha mais conhecimento, era mais capaz de exercer julgamentos e muito mais compassivo do que Donald Trump em seu melhor dia. Mas, aos 81 anos, Joe ficou cansado. Foi então que sua idade começou a aparecer em tropeços físicos e verbais.”

No fim de julho, em meio à crise no partido democrata, Kamala Harris anunciou que não concorreria à eleição do ano que vem para governadora da Califórnia, estado que representou no Senado e onde trabalhou como procuradora. A decisão deixa a porta aberta para que ela tente chegar à Casa Branca mais uma vez em 2028, embora não tenha falado sobre planos para o futuro.