Mariana Janjácomo
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Mariana Janjácomo

Correspondente em Washington, Mariana Janjácomo é mestre em jornalismo pela New York University e morou por cinco anos em Nova York antes de se mudar para a capital americana e acompanhar de perto todas as movimentações do governo federal.

Medo e lockdown na Casa Branca: relato sobre o ataque em Washington

Serviço secreto impediu circulação momentos após disparos feitos próximos à sede do governo americano e jornalistas ficaram trancados por duas horas na sala de imprensa sem qualquer informação

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Quando cheguei à Casa Branca para trabalhar no começo da tarde desta quarta-feira (26), horas antes do ataque, até fiz um vídeo para mostrar como tudo estava extraordinariamente calmo e vazio: por causa da véspera do Thanksgiving, o feriado de Dia de Ação de Graças, Trump não está na cidade, e muita gente não trabalha ou trabalha de casa. Pouco tempo depois, tudo mudaria.

Por volta das três horas da tarde, no horário local, fui sair da sala de imprensa para fazer uma entrada ao vivo no jardim, quando percebi que a porta estava trancada. Isso nunca acontece. Jornalistas normalmente têm uma movimentação bem livre em toda a área de imprensa, dentro e fora da sala.

Um colega chegou a dizer que eu não estava empurrando a porta com força suficiente, tentou abrir e confirmou que estava realmente trancada. Nesse momento, um agente do serviço secreto passou correndo do lado de fora. Nos entreolhamos e sabíamos que algo tinha acontecido.

Tentamos a porta dos fundos, que ainda estava aberta, mas logo ouvimos a ordem de outro agente:  “fiquem aí dentro!”. Logo, os poucos colegas jornalistas que estavam no jardim entraram na sala, escoltados pelos agentes. Éramos cerca de quinze repórteres na sala - número bem menor que o do dia a dia, por causa do feriado.

Não sabíamos o que estava acontecendo. Não nos explicaram o porquê de ficarmos trancados ali e, é claro, obedecemos. Trabalhando quase todos os dias na Casa Branca, estamos acostumados a seguir as ordens dos agentes e às mudanças no esquema de segurança em ocasiões especiais - mas essa movimentação sugeria algo diferente.

Enquanto avisávamos as redações sobre a situação, as notícias do que estava acontecendo do lado de fora começaram a chegar: dois soldados da Guarda Nacional tinham sido baleados a apenas dois quarteirões da Casa Branca.

Eu tinha passado pelo local dos disparos poucas horas antes - é muito perto da estação de metrô mais próxima à Casa Branca.

Conforme chegavam as informações, comecei a reportar ao vivo para a CNN Brasil, com o apoio da editoria de Internacional, que me atualizava sobre o que eu não estava conseguindo ver.

Outros colegas fizeram o mesmo, criando um amontado de vozes que falavam não só em inglês, mas em diversas outras línguas, cada um reportando para o seu país.

Conforme a notícia se espalhava, recebi mensagens de amigos e familiares perguntando como eu estava, e conseguia responder só que eu estava bem, ao vivo, narrando tudo o que estava acontecendo na TV.

Na sala de imprensa, um repórter cinematográfico que trabalha na Casa Branca há mais de trinta anos começou a se lembrar de um episódio durante a década de 90, quando Clinton era presidente, e um atirador disparou contra a casa. Encostado na parede, ele contou que, naquela ocasião, os disparos atravessaram as janelas da sala de imprensa. “É por isso que não vou ficar na janela”, falou. As únicas janelas blindadas, com proteção à prova de balas na sala de imprensa são aquelas perto do púlpito, onde o presidente costuma falar.

Duas horas depois, com o suspeito detido, a cena do crime isolada e os soldados no hospital, o serviço secreto nos autorizou a sair.

Fomos para a esquina onde os disparos aconteceram, onde a imprensa estava reunida para receber mais informações das autoridades.

Me despedi do repórter cinematográfico, aliviada por poder sair, mas preocupada com a situação toda. Ele me deu boa noite e lembrou “Muita coisa já aconteceu aqui… E continua acontecendo.”