Marilia Fontes
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Marilia Fontes

Sócia da Nord Investimentos, é especialista em renda fixa e autora dos livros “Renda fixa não é fixa” e “Renda Fixa é a mãe da bolsa”.

Copom reduz Selic para 14,25% mesmo com inflação e expectativas em alta

Corte da Selic ocorreu em meio à deterioração do cenário inflacionário e manteve dúvidas do mercado sobre os próximos passos da política monetária

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O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu nesta quarta-feira (17), reduzir a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,25% ao ano.

A decisão chama atenção porque ocorre num momento em que praticamente todos os indicadores de inflação e expectativas pioraram desde a reunião anterior do colegiado. 

Segundo o comunicado divulgado pelo Banco Central, o conjunto de indicadores domésticos mostra aceleração da atividade econômica no primeiro trimestre do ano, com os setores mais sensíveis a juros voltando a ganhar força, além de um mercado de trabalho que segue resiliente.

A taxa de desemprego, por exemplo, recuou de 6% para 5,80%, patamar de mínima histórica. Embora a força da atividade seja positiva do ponto de vista de crescimento, ela é diferente do que se espera para um cenário de juros de 14,50%.   

No campo da inflação, o cenário também se deteriorou. O comunicado informa que a inflação cheia e as medidas subjacentes aceleraram, distanciando-se ainda mais da meta e superando o limite superior do intervalo de tolerância na última leitura.

As expectativas de inflação apuradas pela pesquisa Focus para 2026 e 2027 permanecem acima da meta, em 5,30% e 4,10% respectivamente, ambas revisadas para cima em relação à reunião anterior.

A própria projeção do Banco Central para o quarto trimestre de 2027, horizonte relevante da política monetária, subiu de 3,5% para 3,7%. 

Mesmo diante desse quadro, o Comitê optou por seguir com o ciclo de corte. No comunicado, o Banco Central introduziu uma justificativa nova: estendeu o horizonte relevante de política monetária do quarto trimestre de 2027 para o primeiro trimestre de 2028, alegando que, nesse novo horizonte, as projeções de inflação ficam abaixo da meta. 

A decisão brasileira contrasta com a tomada na mesma data pelo Fed, banco central americano. O Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) manteve a taxa de juros dos Estados Unidos estável, entre 3,50% e 3,75% ao ano, na primeira reunião sob a presidência de Kevin Walsh.

A autoridade monetária americana retirou a sinalização de que poderia continuar reduzindo os juros e indicou, por meio das projeções de seus membros, uma probabilidade de 80% de alta da taxa básica ainda este ano, mesmo com a atividade econômica resiliente e a inflação pressionada pelos efeitos do conflito no Oriente Médio. 

O comunicado do Copom também citou, entre os riscos para a inflação, os estímulos do governo à demanda e ao consumo que têm contribuído para um crescimento da atividade econômica acima do potencial, o que, segundo o próprio texto, enfraquece a política monetária.

Analistas de mercado têm destacado que esse ponto reflete o atual nível de endividamento das famílias brasileiras, que está em um dos patamares mais altos já registrados. 

Apesar da redução desta quarta-feira, o Banco Central reafirmou que a magnitude total do ciclo de ajuste da Selic ainda será definida a partir de novos dados, o que mantém em aberto tanto a possibilidade de novos cortes quanto a de uma pausa nas próximas reuniões do colegiado.

A insegurança do mercado com a capacidade do banco central de controlar a inflação pode prejudicar os ativos de risco como bolsa e juros longos, e deve ser alvo de atenção para o investidor. 

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