Oncoclínicas não é a primeira, e provavelmente não será a última
Pedidos de recuperação extrajudicial reforçam como juros elevados pressionam empresas alavancadas e aumentam o risco para investidores

A Oncoclínicas protocolou na última segunda-feira (14), um pedido de recuperação extrajudicial para reestruturar R$ 5,1 bilhões em dívidas.
A companhia, uma das maiores redes de oncologia do país, acumulou prejuízo de R$ 1,5 bilhão em 2025 e chegou ao pedido depois de um ciclo de inadimplência de convênios médicos, pressão operacional crescente e, acima de tudo, uma estrutura de capital que simplesmente não aguenta o peso de uma Selic a 14,25% ao ano.
A Oncoclínicas é mais uma vítima de uma combinação que tem se mostrado letal nos últimos anos: alavancagem alta com juro alto. A lógica parece simples quando os juros estão baixos: a empresa capta dinheiro barato, cresce rapidamente por aquisições ou expansão, e o retorno do negócio supera o custo da dívida.
O problema começa quando os juros sobem e não caem mais. O custo da dívida vai corroendo o caixa mês a mês, a margem operacional que parecia confortável passa a ser insuficiente, e o que era crescimento vira uma armadilha.
Desde 2023, o mercado esperava que a Selic começasse a cair de forma consistente e chegasse a patamares mais próximos de 10% ao ano.
Essa expectativa estava embutida nos planos de negócio de várias empresas, nos modelos de crédito dos analistas e nas teses de investimento de gestoras inteiras. O que aconteceu foi diferente. A inflação brasileira resistiu mais do que o esperado, pressionada por uma combinação de aceleração do gasto público, mercado de trabalho aquecido e choques externos como a guerra no Oriente Médio e a instabilidade no comércio global.
O Banco Central (BC) até iniciou um ciclo de cortes, mas foi obrigado a frear, e a Selic permaneceu em dois dígitos por muito mais tempo do que o mercado havia precificado.
Para as empresas que tinham montado suas estruturas de capital apostando num juro mais baixo, esse atraso foi suficiente para transformar um problema de liquidez em uma crise de solvência.
A Oncoclínicas não está sozinha nesse cenário. Em março de 2026, a Raízen, gigante do setor de energia e biocombustíveis controlada pela Cosan e pela Shell, protocolou o maior pedido de recuperação extrajudicial da história do Brasil, com R$ 65,4 bilhões em dívidas sujeitas ao plano de reestruturação.
No mesmo mês, o Grupo Pão de Açúcar, uma das maiores redes de supermercados do país, também pediu recuperação extrajudicial para renegociar R$ 4,6 bilhões em dívidas financeiras, com capital de giro negativo e vencimentos se acumulando. São nomes grandes, com operações reais, em setores que participam do dia a dia das pessoas. E ainda assim quebraram sob o peso dos juros.
Os casos individuais refletem um quadro mais amplo. Em 2025, o Brasil registrou 5.600 pedidos de recuperação judicial, o maior número em dez anos. Uma média de 53 empresas por mês buscando a Justiça para sobreviver.
O agronegócio liderou as estatísticas, seguido de serviços e comércio, mas o fenômeno atravessou setores. E a projeção para 2026 é de que o número continue subindo, com 8,7 milhões de CNPJs negativados em janeiro e endividamento médio crescente.
Para o investidor que tem crédito privado na carteira, o recado é direto: em ambiente de juro alto e prolongado, o risco de crédito de empresas alavancadas aumenta de forma não linear. Uma empresa que parecia sólida com Selic a 10% pode não conseguir sustentar o mesmo nível de dívida com Selic a 14,25%.
A métrica mais simples para avaliar esse risco é a relação entre dívida líquida e EBITDA: quando esse indicador está acima de 3 vezes, a empresa já está num território de atenção, porque qualquer deterioração operacional ou aumento do custo de captação pode rapidamente comprometer a capacidade de pagamento. Acima de 4 vezes, o risco deixa de ser teórico.
Não é o caso de evitar completamente o crédito privado. Há setores com estruturas de capital saudáveis e fluxo de caixa previsível, como transmissão de energia e saneamento, onde o crédito privado ainda faz sentido com as taxas atuais.
Mas comprar uma debênture ou um CRI porque a taxa parece atrativa sem entender o nível de endividamento do emissor é exatamente o tipo de atalho que a Oncoclínicas, a Raízen e o GPA acabaram de tornar mais caro.



