Pedro Côrtes
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Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

Análise: A crise invisível que ameaça o agronegócio brasileiro

Estudo inédito mostra que aquíferos estratégicos do país já apresentam sinais de esgotamento

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Durante décadas, o Brasil construiu sua reputação de potência agrícola apoiado em uma percepção aparentemente inquestionável: a de que água nunca seria um problema nacional. Afinal, o país concentra cerca de 20% do escoamento superficial do planeta e abriga algumas das maiores reservas de água subterrânea do mundo.

Mas um estudo publicado na revista Science Advances (Getirana, A., Camacho, C. R., Mourão, M. A., et al. 2026. Two decades of human- and climate-induced groundwater storage shifts in Brazil. Science Advances, 12,23) sugere que essa segurança pode ser menos sólida do que parece.

Utilizando inteligência artificial, dados de satélite da NASA e informações de centenas de poços de monitoramento, pesquisadores reconstruíram o comportamento das águas subterrâneas brasileiras entre 2002 e 2023.

O resultado revela um país dividido entre regiões onde os aquíferos ainda conseguem se recuperar e áreas onde os estoques vêm diminuindo de forma persistente. O dado mais relevante talvez seja justamente aquele que passa despercebido no debate público.

Em média, apenas cerca de 12% da chuva que cai sobre as áreas de afloramento dos aquíferos retorna efetivamente aos reservatórios subterrâneos. O restante escoa para rios, evapora ou é consumido pela vegetação.

Em outras palavras, os aquíferos brasileiros são renováveis, mas sua capacidade de reposição é muito menor do que o senso comum costuma imaginar. O estudo identificou situações ainda mais preocupantes.

Em determinados anos, importantes sistemas aquíferos, incluindo áreas associadas ao Guarani, ao Urucuia e ao Bauru-Caiuá, registraram recarga próxima de zero. Isso significa que praticamente não houve reposição das reservas subterrâneas durante aqueles períodos.

A descoberta ganha relevância especial porque coincide com a expansão das áreas irrigadas no Cerrado e com o avanço da fronteira agrícola sobre regiões que dependem crescentemente da água subterrânea.

O trabalho mostra que as maiores perdas de armazenamento ocorrem justamente em parte do Centro-Oeste, Sudeste e Nordeste, regiões onde a pressão econômica sobre os recursos hídricos é mais intensa.

Segundo estimativas da ANA (Agência Nacional de Águas), aproximadamente 7 milhões de hectares utilizam atualmente sistemas de irrigação abastecidos por mananciais, com potencial de expansão significativa nas próximas décadas.

Talvez o aspecto mais intrigante da pesquisa seja a influência do El Niño e da La Niña sobre os aquíferos. Os autores identificaram uma mudança estrutural após o forte El Niño de 20152016.

Em diversas bacias hidrográficas, tendências que antes eram neutras ou positivas passaram a indicar redução dos estoques subterrâneos. O fenômeno sugere que eventos climáticos extremos podem deixar marcas duradouras no sistema hidrológico brasileiro, mesmo depois de encerradas as anomalias atmosféricas que lhes deram origem.

Essa constatação ajuda a compreender por que eventos recentes produziram impactos tão expressivos. A seca histórica da Amazônia em 2023 e as enchentes do Rio Grande do Sul em 2024 não foram apenas fenômenos superficiais.

O estudo sugere que alterações nos estoques subterrâneos podem amplificar tanto a escassez quanto os excessos de água. Solos já saturados reduzem a capacidade de infiltração e favorecem enchentes. Aquíferos esvaziados diminuem a resiliência durante períodos de estiagem.

Do ponto de vista econômico, as conclusões merecem atenção imediata. Dados do Censo Demográfico de 2022, realizado pelo IBGE, indicam que 40% dos municípios brasileiros dependem exclusivamente de águas subterrâneas para o abastecimento público, enquanto outros 17% utilizam essa fonte de forma complementar.

A agricultura irrigada também amplia sua dependência desses reservatórios, especialmente em regiões sujeitas a secas recorrentes. Se a reposição natural continuar diminuindo em algumas áreas, a disponibilidade hídrica deixará de ser apenas uma questão ambiental para se tornar um fator de competitividade econômica.

Há ainda uma dimensão geopolítica pouco explorada. O Brasil é um dos principais fornecedores globais de alimentos. Perdas persistentes em aquíferos estratégicos podem afetar a produtividade agrícola, segurança energética e estabilidade de cadeias globais de abastecimento.

Em um cenário de mudanças climáticas, a gestão da água subterrânea tende a adquirir importância comparável à que hoje se atribui à energia ou à infraestrutura logística.

A principal mensagem do estudo é simples: o Brasil continua sendo uma potência hídrica, mas não pode mais agir como se seus recursos subterrâneos fossem inesgotáveis.

A água invisível que sustenta parte da economia nacional começa a emitir sinais de esgotamento. Ignorá-los seria repetir, em escala subterrânea, os mesmos erros que já transformaram secas e enchentes em crises econômicas recorrentes.