Pedro Côrtes
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Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

Análise: Argentina leva o milho para a rota dos biocombustíveis

Expansão dos biocombustíveis cria novo eixo de demanda para o agro argentino

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O milho argentino ganhou um concorrente doméstico para os portos: a usina de etanol. A mudança ainda é pequena diante do tamanho da safra, mas começa a alterar uma decisão econômica conhecida pelos grandes exportadores de commodities — vender a matéria-prima ou capturar mais valor antes que ela deixe o país.

O relatório Biofuels Annual, divulgado pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, o USDA, em 20 de agosto, projeta produção recorde de 1,35 bilhão de litros de etanol na Argentina em 2026, cerca de 60% a partir do milho.

O consumo doméstico também deve atingir máxima histórica, enquanto as exportações recuariam de 131 milhões de litros em 2025 para 80 milhões neste ano.

A mudança ocorre antes mesmo de uma reforma mais ampla da legislação. A mistura obrigatória permanece em 12%, mas, desde março, as distribuidoras podem chegar voluntariamente a 15%.

O USDA estima que o teor efetivo fique próximo de 13% em 2026, enquanto propostas em discussão no Congresso argentino procuram ampliar de maneira permanente o espaço dos biocombustíveis.

Isso cria uma nova demanda estrutural pelo milho, mas não significa que a Argentina esteja exportando menos cereal. A GEA, unidade de estudos agrícolas da Bolsa de Comércio de Rosário, elevou em 12 de agosto a estimativa da safra 2025/26 para 70,5 milhões de toneladas, um recorde.

Dois dias depois, a instituição informou que o país havia embarcado 5,14 milhões de toneladas em julho, o maior volume mensal de milho de sua história.

O aparente paradoxo é simples. O etanol reduz o excedente que estaria disponível para exportação caso essa indústria não existisse, mas uma safra suficientemente grande permite que consumo doméstico e vendas externas avancem simultaneamente.

Porto e usina disputam uma produção que, por enquanto, cresceu mais rapidamente que a demanda industrial.

Essa disputa também muda a qualidade econômica do uso do cereal.

Na usina, o milho deixa de ser apenas grão comercializado e gera etanol, grãos secos de destilaria usados na alimentação animal, óleo de milho e dióxido de carbono para aplicações industriais.

Parte do valor que seria embarcado como commodity permanece na cadeia produtiva local.

O Brasil mostra a dimensão que esse processo pode alcançar. No segundo levantamento da safra 2026/27, divulgado em 20 de agosto, a Conab estimou produção total de 41,88 bilhões de litros de etanol, dos quais 11,91 bilhões virão do milho, alta de 17% sobre o ciclo anterior.

A expansão aumenta a competição doméstica pelo cereal, mesmo em um país que permanece entre os principais produtores e exportadores mundiais.

Em análise publicada em 5 de agosto, Luiz Fernando Roque, da inteligência de mercado da Hedgepoint Global Markets, definiu o etanol de milho como “um novo pilar da demanda doméstica”.

A consultoria calcula em 28,5 milhões de toneladas o consumo brasileiro de milho pelo setor e projeta que a Argentina possa superar o Brasil nas exportações em 2025/26, com 45 milhões de toneladas contra 43 milhões.

A troca de posições, porém, não deve ser atribuída apenas aos biocombustíveis. A safra argentina recorde, preços mais competitivos e a forte redução das compras do Irã também pesam sobre os fluxos brasileiros.

O próprio volume exportado pelo Brasil pode crescer mesmo com a eventual queda para o terceiro lugar no ranking mundial. O movimento dos dois países revela uma transformação mais ampla no mercado sul-americano.

À medida que a indústria de etanol avança, o preço do milho passa a refletir com maior intensidade não apenas colheitas e exportações, mas também decisões sobre combustíveis e energia. Para a Argentina, a questão deixa de ser simplesmente quanto milho vender ao exterior.

Passa a ser quanto valor pretende agregar antes de chegar ao porto.