Pedro Côrtes
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Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

Artemis acelera nova corrida tecnológica global

Programa lunar amplia CAPEX em inovação e cria vetores diretos para energia, indústria e produtividade — com efeitos estratégicos para o Brasil

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O Programa Apollo não apenas levou o homem à Lua — ele redesenhou a base industrial do pós-guerra. Ao viabilizar a produção em escala de circuitos integrados e acelerar avanços em materiais e telecomunicações, o programa funcionou como um dos mais bem-sucedidos choques tecnológicos financiados pelo Estado, com efeitos diretos sobre produtividade e crescimento nas décadas seguintes.

Mais de meio século depois, o Programa Artemis retoma essa lógica em um contexto distinto — e mais igualmente para os mercados. Com orçamento na casa de dezenas de bilhões de dólares e forte alavancagem privada, o programa liderado pela Nasa inaugura um ciclo de investimentos que combina inteligência artificial, energia avançada e manufatura digital.

A mudança é estrutural. O Apollo foi uma corrida de chegada. O Artemis é um projeto de permanência. Isso altera o CAPEX: sai a lógica de missões pontuais e entra a de infraestrutura contínua, com demanda recorrente por energia, logística, comunicação e suporte à vida.

Na prática, o programa se torna um laboratório de tecnologias com aplicação imediata em setores intensivos em capital. Sistemas autônomos baseados em IA, desenvolvidos para operar com baixa conectividade, têm transbordamento direto para mineração, óleo e gás, logística e defesa — onde ganhos marginais de eficiência geram impacto relevante de margem.

O vetor energético é central. A necessidade de garantir fornecimento durante a noite lunar — cerca de 14 dias — acelera o desenvolvimento de baterias avançadas, células a combustível e reatores nucleares compactos. Em um cenário de transição energética, qualquer ganho de eficiência no armazenamento impacta diretamente o custo sistêmico da eletricidade e o valuation de projetos renováveis.

Há um paralelo direto com o Apollo. Naquele momento, a demanda por miniaturização viabilizou a indústria de microeletrônica. Hoje, a pressão por resiliência energética pode cumprir papel semelhante para armazenamento e geração distribuída.

Outro eixo crítico é a manufatura. O uso de impressão 3D com recursos locais — como o regolito (solo) lunar — antecipa uma reorganização das cadeias produtivas: produzir próximo ao consumo, reduzindo logística e exposição a disrupções. Em um ambiente de reconfiguração geopolítica, isso reforça estratégias de nearshoring e altera decisões de investimento global.

Também avançam sistemas fechados de suporte à vida. Tecnologias de reciclagem integral de água, ar e resíduos — desenvolvidas para ambientes extremos — dialogam diretamente com desafios urbanos e climáticos, sobretudo em regiões sob estresse hídrico.

Para o Brasil, os efeitos são potencialmente favoráveis. O país reúne setores diretamente impactados: energia, agronegócio e mineração. Avanços em armazenamento podem reduzir a volatilidade elétrica e custo de capital. No agro, tecnologias de monitoramento ampliam produtividade e resiliência. Na mineração, automação reduz custos e riscos operacionais.

O ponto crítico é a captura de valor. O Artemis estrutura uma nova cadeia industrial — a economia cislunar — que envolve lançadores, serviços e infraestrutura orbital, como o Lunar Gateway. Países que se posicionarem como fornecedores estratégicos tendem a capturar ganhos de longo prazo.

O histórico sugere cautela e oportunidade. O Apollo mostrou que grandes programas públicos geram retornos econômicos disseminados. O Artemis adiciona velocidade: com cadeias globais integradas e igual participação privada, os spillovers tendem a ser rápidos e disputados.

Se o programa Apollo pavimentou a era digital, o Artemis pode inaugurar a era da autonomia e da energia avançada. Para investidores e formuladores de política, trata-se menos de exploração espacial e mais de um novo ciclo de formação de capital tecnológico — com efeitos que serão sentidos, sobretudo, na Terra.