Pedro Côrtes
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Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

Janeiro de 2026 figura entre os mais quentes, apesar do frio

Dados do observatório europeu Copernicus mostram que extremos regionais de frio convivem com aquecimento estrutural do planeta e aproximação do limite de 1,5 °C

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Gado pode perder pastagem até 2100, diz estudo com previsão alarmanteO observatório europeu Copernicus Climate Change Service confirmou que janeiro de 2026 foi o quinto mais quente já registrado no planeta, reforçando a tendência de aquecimento global mesmo em um mês marcado por nevascas severas e ondas de frio em partes do Hemisfério Norte.

A temperatura média global da superfície atingiu 12,95 °C, valor significativamente acima da média histórica recente.

O número não representa a temperatura de um local específico, mas sim a média global da superfície terrestre e dos oceanos, calculada a partir do sistema de reanálise ERA5, operado pelo European Centre for Medium-Range Weather Forecasts. O método combina observações de estações meteorológicas, boias oceânicas, satélites e modelos físicos da atmosfera, produzindo um retrato consistente do clima global mês a mês.

Segundo o Copernicus, janeiro de 2026 ficou cerca de 0,5 °C acima da média do período 1991–2020, base de referência adotada atualmente pelo serviço europeu. Em relação aos níveis pré-industriais (1850–1900), a anomalia se aproxima de 1,5 °C, patamar central do debate climático internacional.

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A coexistência entre frio intenso em regiões como Europa e América do Norte e uma média global elevada não configura contradição científica. Especialistas explicam que o aquecimento mais rápido do Ártico altera o comportamento das correntes de vento que circulam o planeta. Essas correntes, que normalmente mantêm o ar frio concentrado no Ártico nesta época do ano, ficam mais instáveis.

Com isso, bolsões de ar gelado avançam ocasionalmente para áreas mais ao sul, enquanto outras regiões registram temperaturas acima do normal, ampliando a ocorrência de extremos climáticos.

Na prática, um sistema climático mais quente tende a produzir maior frequência e intensidade de extremos, tanto de calor quanto de frio, sem alterar a direção do sinal de aquecimento no longo prazo. O dado de janeiro reforça que eventos localizados não anulam a tendência estrutural observada nas séries globais.

Do ponto de vista político e econômico, a proximidade do patamar de 1,5 °C acima do nível pré-industrial acende um alerta importante. O limite definido pelo Acordo de Paris refere-se à média global de longo prazo, e não a meses isolados. Ainda assim, a recorrência de meses e anos próximos desse nível sugere que o risco de ultrapassagem permanente deixou de ser teórico.

Para o mercado, o sinal é claro: a volatilidade climática tende a se tornar um fator estrutural, com impactos diretos sobre seguros, infraestrutura, energia, agricultura e cadeias globais de suprimento. Janeiro de 2026 entra na estatística não apenas como um recorde climático, mas como mais um indicativo de que o aquecimento global já opera no presente — inclusive quando o frio chama mais atenção no noticiário.

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