Pedro Côrtes
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Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

Análise: Descoberta na Margem Equatorial muda o risco, não o caixa

Morpho reforça a tese geológica no Amapá, mas novos poços terão de provar escala, produtividade e retorno antes que o achado possa entrar nas contas da Petrobras

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A descoberta de hidrocarbonetos no poço Morpho é uma notícia importante para a Petrobras. O mercado, porém, ainda não recebeu o dado que permitiria calcular seu valor: não há estimativa de volume recuperável, produtividade ou comercialidade.

É essa diferença que deve orientar a análise do anúncio feito na sexta-feira (14). No bloco FZA-M59, a 175 quilômetros da costa do Amapá e sob 2.886 metros de água, a Petrobras encontrou um intervalo portador de hidrocarbonetos. A avaliação da área continua.

O resultado reduz uma parcela do risco geológico. Mostra que a interpretação que levou a companhia a perfurar aquele ponto encontrou correspondência nas rochas. Não demonstra, por enquanto, que exista uma grande reserva na região.

Essa resposta exigirá outros poços. Será necessário verificar a continuidade do reservatório, sua qualidade, as características dos fluidos e a capacidade de produzir petróleo ou gás em vazões suficientes para remunerar um empreendimento em águas ultraprofundas.

Há dinheiro relevante nesse projeto. O Plano de Negócios 2026-2030 prevê US$ 2,5 bilhões em investimentos e 15 novos poços na Margem Equatorial. Esse número ajuda a colocar Morpho em perspectiva: estamos diante de uma campanha exploratória, e não de um único poço capaz de validar sozinho uma faixa que se estende do Amapá ao Rio Grande do Norte.

A própria história recomenda cautela. Em 1976, Pirapema, também na Bacia da Foz do Amazonas, apresentou uma acumulação subcomercial de gás estimada em cerca de 10 bilhões de metros cúbicos in situ.

Em 1982, outro poço encontrou uma acumulação potencial entre aproximadamente 7 bilhões e 11 bilhões de metros cúbicos. Nenhuma das duas se transformou em campo produtor. No Pará-Maranhão, o histórico é semelhante.

Os poços 1-PAS-9 e 1-PAS-11 registraram acumulações subcomerciais e o 1-MAS-5 chegou a apresentar produção subcomercial de óleo. São exemplos concretos de uma regra elementar da indústria: presença de hidrocarbonetos, mesmo em volumes aparentemente relevantes, não assegura retorno econômico.

Os casos mais recentes de Pitu Oeste e Anhangá, na Bacia Potiguar, devem ser interpretados de outra forma. Ambos confirmaram hidrocarbonetos e seguiram para avaliações complementares.

Não há fundamento para classificá-los como fracassos econômicos enquanto a comercialidade não estiver definitivamente estabelecida. Morpho inicia agora percurso semelhante.

A companhia terá de transformar informação geológica em uma estimativa de recursos recuperáveis e, depois, demonstrar que esses barris podem competir por capital dentro do próprio portfólio da Petrobras. Esse último ponto é decisivo.

A empresa trabalha com Brent de equilíbrio prospectivo médio próximo de US$ 25 por barril para sua carteira de exploração e produção.

Seria incorreto aplicar esse número ao Morpho: ainda não existem desenho de desenvolvimento, investimento total ou curva de produção capazes de determinar o preço de equilíbrio específico do projeto. Também é cedo para falar em reação das ações.

O anúncio ocorreu depois do fechamento do pregão de sexta-feira. O próximo pregão mostrará como investidores recebem a descoberta, mas mesmo uma eventual valorização inicial deverá ser separada daquilo que realmente altera o valor da companhia no longo prazo.

O primeiro efeito econômico do Morpho está na redução da incerteza exploratória e no fortalecimento da possibilidade de reposição futura de reservas. Produção, receita, lucro e dividendos pertencem a outra etapa.

A descoberta abre uma perspectiva que não existia com a mesma qualidade antes da perfuração. Agora começa a parte mais difícil: saber quanto existe, quanto pode ser extraído e quanto custará produzir. A Petrobras encontrou hidrocarbonetos.

Agora começa uma etapa mais exigente: demonstrar que há escala e competitividade para transformar a descoberta em produção rentável.

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