Brent estaciona em US$ 100 e pressiona Copom
Escalada da guerra entre EUA, Israel e Irã mantém petróleo elevado, pressiona inflação global e cria novo dilema para o Banco Central na reunião desta semana

A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) vai ocorrer sob um fator externo que voltou a dominar o debate econômico global: o preço do petróleo.
A escalada da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã elevou o prêmio de risco geopolítico no Golfo Pérsico e impulsionou as cotações do Brent, reabrindo um canal clássico de pressão inflacionária justamente no momento em que várias economias começavam a discutir o início de cortes de juros.
Para o Brasil, esse choque externo tem implicações diretas para a trajetória da Selic. O aumento do petróleo impacta a inflação tanto pelo efeito imediato sobre combustíveis quanto pelos efeitos indiretos sobre transporte, alimentos e insumos industriais.
Estimativas da Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda indicam que cada aumento de 1% no preço internacional do petróleo acrescenta cerca de 0,02 ponto percentual ao IPCA, considerando repasse parcial dos preços de refinaria aos consumidores.
Esse mecanismo já aparece nas projeções oficiais. Na atualização da grade macroeconômica divulgada em março, o governo revisou o preço médio esperado do Brent para 2026 de US$ 65,97 para US$ 73,09 por barril, movimento suficiente para elevar a projeção de inflação do ano de 3,6% para 3,7%.
O impacto potencial, no entanto, depende da duração do conflito no Oriente Médio. Simulações do Ministério da Fazenda indicam que, se o choque nos preços do petróleo for temporário, o efeito adicional sobre a inflação brasileira seria de cerca de 0,14 ponto percentual.
Em um cenário de guerra mais prolongada, com Brent médio de US$ 82 por barril, a inflação poderia subir 0,33 ponto percentual. Em um cenário mais disruptivo — com danos relevantes à infraestrutura energética da região e Brent médio ao longo do ano ao redor de US$ 100 — o impacto poderia alcançar 0,58 ponto percentual no IPCA.
Para o Banco Central, a questão central é avaliar se esse choque será transitório ou persistente. O Brasil possui uma característica que torna o diagnóstico mais complexo: o país se tornou exportador líquido de petróleo.
Em 2025, petróleo e derivados representaram cerca de 16% das exportações brasileiras e aproximadamente 8% das importações, gerando superávit comercial próximo de US$ 32 bilhões.
Em tese, um petróleo mais caro melhora os termos de troca, fortalece o saldo externo e pode contribuir para a apreciação cambial, fatores que ajudam a mitigar parte do impacto inflacionário.
Ao mesmo tempo, porém, combustíveis mais caros afetam diretamente o custo do transporte e a estrutura logística da economia brasileira, sobretudo por meio do diesel, um dos principais vetores de propagação inflacionária no país.
Esse equilíbrio delicado entre efeitos positivos e negativos coloca o Copom diante de um dilema típico de choques de oferta. Se a alta do petróleo se mostrar temporária, reagir com política monetária mais restritiva pode impor custo desnecessário à atividade econômica.
Se, por outro lado, a guerra prolongar o choque energético e contaminar expectativas de inflação, a autoridade monetária poderá ser forçada a manter juros elevados por mais tempo.
Os próprios modelos macroeconômicos da Fazenda indicam que o aumento do petróleo tende a provocar uma resposta da política monetária.
A elevação da inflação resultante do choque energético tende a levar a juros mais restritivos, o que reduz parte dos efeitos positivos sobre o crescimento econômico decorrentes do aumento das exportações de petróleo.
O resultado é que o conflito no Oriente Médio reintroduz uma variável que parecia parcialmente superada no debate monetário recente: o risco de inflação importada via energia. Mais do que a decisão desta semana, o mercado observará com atenção o tom do comunicado do Copom.
Em um cenário de petróleo volátil e guerra no Golfo, o Banco Central terá de calibrar a política monetária diante de um choque que não nasceu na economia brasileira, mas que pode redefinir o ritmo de queda dos juros no país.



