Pedro Côrtes
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Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

EUA, Irã e Venezuela reabrem o prêmio de risco do petróleo

Movimentos militares dos EUA, retórica de Trump e incertezas sobre a Venezuela elevam volatilidade e expectativas na cotação internacional.

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A movimentação recente da frota americana no Oriente Médio voltou a funcionar como “gatilho de prêmio de risco” no petróleo do tipo Brent — não porque o mercado esteja precificando guerra como cenário-base, mas porque a combinação de presença naval visível e retórica presidencial reabre, a cada frase, a caixinha dos riscos de oferta e de logística.

O ponto de inflexão, nesta rodada, foi a entrada de um porta-aviões dos EUA na região do Oriente Médio, em movimento reportado por autoridades e acompanhado por sinais de reforço do dispositivo militar sob o guarda-chuva do Comando Central - CENTCOM.

Na prática, porta-aviões e escoltas não “tiram barris” imediatamente do mercado. Mas mudam a leitura sobre probabilidade de incidentes, escalada por acidente, custo de seguro, rotas e, no limite, o risco de interrupção no entorno do Golfo e do Estreito de Ormuz — um gargalo que o mercado trata como variável binária: quase sempre “ok”, até o dia em que deixa de estar.

A retórica de Donald Trump, por sua vez, adiciona mais volatilidade. Recentemente, ele voltou a falar em “armada” e em prazo curto para que o Irã “volte à mesa” — com ameaça explícita de uso de força caso não haja acordo.

Esse tipo de mensagem tende a aparecer no preço não como tendência longa e limpa, mas como picos: o Brent ganha alguns dólares quando a escalada parece mais provável — e devolve rapidamente quando o próprio Trump suaviza o tom ou quando surgem sinais de que a pressão ficará no plano retórico.

E foi exatamente isso que o mercado mostrou nas últimas duas semanas: quando Trump “reduz o volume” das ameaças, o Brent cai; quando a tensão volta a subir, o Brent recupera.

Em 14 de janeiro, comentários que aliviaram temores de choque de oferta ligado ao Irã ajudaram a empurrar o petróleo para baixo, com queda reportada em torno de 3,5% no dia. Em 22 de janeiro, novo recuo de ameaças também foi acompanhado de baixa: o Brent terminou a sessão perto de US$ 64.

Já na virada para 27–28 de janeiro, com o reforço militar em evidência e a tensão no radar, o Brent voltou a operar e fechou em US$ 67 em 27 de janeiro em meio a preocupações geopolíticas.

Paralelamente, a Venezuela volta a aparecer como variável relevante na equação do risco, não pelo volume imediato de barris, mas pela incerteza sobre sua cooperação com os Estados Unidos.

O país concentra as maiores reservas comprovadas do mundo, mas opera hoje com produção deprimida por anos de sanções, subinvestimento e restrições logísticas.

Qualquer sinal de avanço — ou frustração — nas negociações envolvendo licenças, exportações e atuação de empresas americanas reabre expectativas sobre oferta futura e adiciona ruído ao mercado.

Não é um choque físico no curto prazo, mas um componente adicional de prêmio de risco, especialmente em um ambiente já sensível a tensões geopolíticas.

Há, porém, um detalhe que impede leituras simplistas do tipo “foi tudo Irã” ou “foi só política externa”. Nesta semana, o choque mais “físico” para o preço veio da oferta americana, com uma tempestade de inverno afetando produção e logística nos EUA — um fator que, por si só, já seria suficiente para sustentar o Brent. Em outras palavras: a geopolítica elevou o prêmio de risco; o clima nos EUA entregou o fundamento.

O que isso significa para o investidor — e para quem acompanha inflação e combustíveis? Que o Brent está reagindo em duas camadas. A primeira é estrutural e lenta (balanço global, OPEP+, estoques, crescimento).

A segunda é de alta frequência e política: manchetes, posicionamento militar, negociações diplomáticas sensíveis e frases em rede social. É nessa segunda camada que Trump exerce maior influência: ao alternar ameaça e descompressão, ele injeta incerteza no curto prazo — e, no mercado de petróleo, incerteza vira prêmio de risco.

No curto horizonte, a leitura que se impõe é menos “qual será o próximo preço?” e mais “qual será o próximo gatilho?”. Se a postura americana evoluir para exercícios, reforços adicionais ou ultimatos — seja no Oriente Médio, seja nas negociações com Caracas — o Brent tende a incorporar uma camada extra de proteção no preço, visível sobretudo em opções, seguros marítimos e spreads de risco, antes mesmo de qualquer interrupção real de oferta.

Se, ao contrário, a Casa Branca sinalizar negociação e reduzir o ruído, esse prêmio tende a se dissipar tão rapidamente quanto surgiu — como já ocorreu ao longo de janeiro.

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