Pedro Côrtes
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Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

Maior usina nuclear do mundo volta a operar no Japão após 15 anos

Reativação da Kashiwazaki-Kariwa reposiciona energia nuclear como pilar de estabilidade em transição que combina renováveis, segurança energética e controle de custos

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Após quase 15 anos fora de operação, o Japão deu um passo decisivo na recomposição de sua segurança energética ao autorizar a retomada das atividades da Kashiwazaki-Kariwa, a maior usina nuclear do mundo em capacidade instalada.

O movimento encerra um longo ciclo de paralisia iniciado após o acidente de Fukushima, em 2011, e sinaliza uma inflexão estrutural na política energética do país.

Localizada na província de Niigata, a usina reúne sete reatores e capacidade total próxima de 8 gigawatts — volume suficiente para abastecer milhões de residências e reduzir de forma relevante a dependência japonesa de gás natural, carvão e petróleo importados.

A retomada começou com apenas um dos reatores, após anos de reforços regulatórios, inspeções adicionais e exigências de segurança mais rígidas do que as vigentes antes de Fukushima.

A operadora Tokyo Electric Power Company afirmou que o reinício ocorre sob um arcabouço de segurança ampliado, com sistemas redundantes de fornecimento elétrico, reforço estrutural contra eventos sísmicos extremos e protocolos de emergência revisados.

Em janeiro, um teste preliminar chegou a ser interrompido por um alarme técnico, o que adiou a operação plena, mas não alterou a decisão estratégica.

Do ponto de vista econômico, a reativação da maior usina nuclear do planeta reduz a exposição do Japão à volatilidade dos preços internacionais de energia — especialmente em um contexto de tensões geopolíticas persistentes e cadeias globais ainda frágeis.

Ao ampliar a oferta de eletricidade de base, o país mitiga riscos inflacionários associados ao custo da energia, melhora a previsibilidade para a indústria e reduz a pressão sobre sua balança comercial energética.

O movimento não representa, porém, um abandono da agenda de energias renováveis. Ao contrário. O Japão vem ampliando de forma consistente sua capacidade em fontes limpas, com destaque para a energia solar fotovoltaica, hoje a principal renovável do país, além de investimentos crescentes em eólica offshore, biomassa e pequenas hidrelétricas.

As renováveis já respondem por pouco mais de um quinto da eletricidade gerada no país, e o plano energético oficial projeta que essa participação avance para algo entre 40% e 50% até 2040.

A limitação física do território japonês, a elevada densidade urbana, os custos elevados de conexão à rede e a intermitência das fontes renováveis explicam por que o governo opta por uma estratégia híbrida.

Nesse desenho, a energia nuclear reassume o papel de âncora de estabilidade do sistema elétrico, garantindo oferta contínua enquanto as renováveis avançam e tecnologias de armazenamento e redes inteligentes amadurecem.

Antes de Fukushima, cerca de 30% da eletricidade japonesa vinha de usinas nucleares. O desligamento quase integral do parque forçou o país a recorrer maciçamente a combustíveis fósseis importados, elevando custos, emissões e vulnerabilidade externa.

A retomada gradual da geração nuclear passa a ser vista pelo governo como um instrumento de transição pragmática — não como substituta das renováveis, mas como complemento necessário para atingir a neutralidade de carbono até 2050.

Contudo, o reinício da Kashiwazaki-Kariwa segue cercado de controvérsias. Comunidades locais e organizações ambientalistas questionam os riscos associados à atividade nuclear em uma região sísmica e a capacidade de resposta em caso de emergência.

Pesquisas de opinião indicam resistência social relevante, mantendo o tema sob intenso escrutínio político, regulatório e judicial.

Ainda assim, ao combinar expansão de renováveis com a reativação controlada de ativos nucleares, o Japão sinaliza ao mercado uma leitura clara: em grandes economias industriais, a transição energética deixou de ser apenas um debate ambiental e passou a operar como variável central de competitividade, estabilidade macroeconômica e segurança nacional.

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