Pedro Côrtes
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Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

Análise: Com o BNDES, Brasil testa o valor da restauração

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O BNDES lançou a segunda etapa do ProFloresta+ com ambição que vai além do reflorestamento. A nova fase prevê restaurar até 60 mil hectares, capturar cerca de 19 milhões de toneladas de CO₂ e movimentar até R$ 6 bilhões em créditos de carbono.

O número chama atenção, mas a essência está em criar um mecanismo capaz de revelar preço, organizar demanda e financiar a restauração ecológica em escala.

Esse detalhe é decisivo. O banco não está tabelando o valor da floresta nem anunciando um gasto público simples.

Está tentando estruturar um mercado: compradores de créditos, desenvolvedores capazes de restaurar áreas degradadas com espécies nativas e financiamento de longo prazo para transformar promessa ambiental em contrato auditável.

A primeira fase, ancorada pela Petrobras, deu a referência que faltava. A Systemica venceu lote de 2 milhões de toneladas de CO₂ equivalente a US$ 55,33 por tonelada; a brCarbon ficou com outro lote de 2 milhões a US$ 55,76; e a re.green foi selecionada para 1 milhão de toneladas a US$ 73,82.

O preço da re.green ficou cerca de 33% acima do menor lote.

Esse ágio não prova, sozinho, que um projeto seja superior. Mas indica que o mercado começa a diferenciar risco, metodologia, área, execução e qualidade percebida do crédito.

Aloizio Mercadante resumiu a lógica ao falar em “demanda firme, financiamento de longo prazo e transparência na formação de preços”.

A demanda potencial existe. Em 2024, energia e processos industriais emitiram, juntos, 518 milhões de toneladas de CO₂ equivalente no Brasil, cerca de 24% das emissões brutas nacionais.

Mas mercado não nasce por decreto: concessões recentes de restauração no Pará e em Rondônia tiveram apenas uma concorrente efetiva.

O risco de integridade também é concreto. Em 2023, uma investigação do Guardian, Die Zeit e SourceMaterial questionou créditos REDD+ certificados pela Verra; a entidade contestou as conclusões e a metodologia.

O episódio importa como advertência: sem adicionalidade, permanência, rastreabilidade e salvaguardas sociais, crédito de carbono perde valor econômico antes mesmo de perder valor ambiental.

Há, porém, uma diferença importante. O ProFloresta+ não está vendendo apenas desmatamento evitado; sua tese central é restauração ecológica, com plantio, recomposição e contratos de longo prazo.

Isso tende a facilitar a mensuração, mas não elimina riscos de execução, incêndio, pressão fundiária, dupla contagem ou
superestimação da remoção de carbono.

A conexão com o mercado regulado exige precisão. A Lei 15.042 criou o Sistema Brasileiro, de Comércio de Emissões e separou mercado regulado e voluntário.

Créditos gerados hoje no ambiente voluntário poderão ganhar liquidez regulatória se cumprirem critérios e forem registrados como CRVEs, os Certificados de Redução ou Remoção Verificada de Emissões.

O Brasil tem vantagem natural: área degradada, biodiversidade, conhecimento técnico e pressão internacional por soluções baseadas na natureza. Mas vantagem natural não é mercado.

O leilão do BNDES medirá se há empresas dispostas a pagar por créditos florestais de alta integridade e se o país consegue transformar restauração em infraestrutura econômica.

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