Pedro Côrtes
Blog
Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

Análise: El Niño muda o mapa do risco elétrico

A folga hídrica protege 2026, mas o El Niño pode comprometer a recarga dos reservatórios e estreitar as margens operacionais em 2027

Compartilhar matéria

O sistema elétrico brasileiro chega ao El Niño em situação mais segura do que a memória das últimas crises hídricas poderia sugerir. Os reservatórios tornam pouco provável a ocorrência de problemas de fornecimento em 2026. Essa segurança, porém, protege o balanço anual de energia, não necessariamente a capacidade de entregá-la no lugar e no horário em que será demandada.

O principal risco imediato não é a falta de eletricidade, mas o custo de preservar água, atender aos horários de ponta e compensar desequilíbrios regionais de geração. Em 2026, o cenário mais provável é de operação mais cara e interrupções localizadas. Em 2027, uma estação chuvosa insuficiente poderá reduzir as margens justamente quando o planejamento oficial já identifica dificuldades de potência.

Reservatórios e geração

A bandeira tarifária amarela, mesmo com armazenamento confortável, mostra que reservatórios cheios não significam energia barata. As afluências diminuem em grande parte do país, atribuindo maior valor à água acumulada. Acionar termelétricas agora custa mais, mas reduz a exposição caso as chuvas entre o fim de 2026 e o início de 2027 sejam insuficientes.

O consumidor paga, assim, uma espécie de prêmio de seguro. Utilizar intensamente os reservatórios reduziria custos no curto prazo, mas deixaria o sistema mais vulnerável no ano seguinte.

O El Niño também amplia a desigualdade geográfica. Chuvas mais abundantes podem favorecer a geração no Sul, enquanto Norte e Nordeste enfrentam vazões menores e o centro do país convive com calor, seca e maior consumo por refrigeração.

O risco mais relevante em 2027 pode não ser falta de energia anual, mas insuficiência de potência em determinadas horas. O início da noite será especialmente sensível: a geração solar recua, enquanto o calor mantém elevado o uso de ar-condicionado. Essa diferença terá de ser coberta por hidrelétricas flexíveis, térmicas, grandes sistemas de armazenamento por baterias ou redução voluntária do consumo. Usinas reversíveis seriam uma opção, mas sua construção não é possível no curto prazo.

Transmissão

Energia disponível em uma região só representa segurança para outra quando existem linhas capazes de transportá-la. Nos cenários mais apertados de 2027, o ONS identifica situações em que há geração suficiente no país, mas ela não chega ao local necessário porque as interligações atingem seus limites.

O El Niño adiciona risco físico a essa limitação operacional. Tempestades no Sul podem atingir torres, linhas e subestações. No Centro-Oeste, Norte e parte do Sudeste, calor, seca e vegetação inflamável ampliam a exposição a incêndios.

A perda de um corredor estratégico pode limitar transferências, restringir a geração disponível e obrigar o acionamento de usinas mais caras. O problema não está somente em produzir energia, mas em garantir que ela possa circular pelo sistema.

Distribuição

Este será o elo mais visível para o consumidor. Uma cidade pode permanecer horas ou mesmo dias sem eletricidade, mesmo quando o SIN (Sistema Interligado Nacional) dispõe de energia suficiente.

Árvores sobre a fiação, postes danificados, transformadores sobrecarregados e subestações alagadas podem gerar interrupções extensas durante tempestades e ondas de calor. Para famílias e empresas, segurança elétrica não é o percentual dos reservatórios, mas a continuidade do serviço no último quilômetro da rede.

As distribuidoras precisarão avançar da lógica de reparo para a de antecipação. Isso inclui prever eventos, isolar falhas, automatizar alimentadores e recompor rapidamente o fornecimento.

Oportunidades

O cenário favorece negócios ligados à flexibilidade e à resiliência. Baterias podem atender aos horários de ponta, absorver excedentes renováveis e reduzir o uso das térmicas mais caras. Reforços de transmissão valorizam ativos de geração, hoje limitados por congestionamentos.

Automação de redes, medidores inteligentes, previsão meteorológica, monitoramento de incêndios, manutenção preditiva e proteção de subestações contra enchentes deixam de ser despesas acessórias. Tornam-se instrumentos de preservação de receita, redução de interrupções e proteção do valor regulatório das concessionárias.

Para grandes consumidores, microrredes, geração local e armazenamento passam a competir não apenas pelo preço da energia, mas pelo custo evitado de uma paralisação. Hospitais, indústrias, telecomunicações, centros logísticos e centros de dados formam o mercado mais evidente.

O Brasil tem condições de atravessar 2026 com segurança, mas não deveria confundir água armazenada com preparação estrutural. Os reservatórios reduziram o risco imediato e compraram tempo. O El Niño mostrará se esse tempo foi apenas consumido ou convertido em flexibilidade e resiliência.

Acompanhe Economia nas Redes Sociais