Pedro Côrtes
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Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

Análise: EUA poupam minerais e pressionam etanol e floresta

Ao preservar insumos estratégicos e pressionar o biocombustível e as cadeias ligadas ao uso da terra, Washington revela a hierarquia econômica de sua ofensiva

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A lista final de exceções ao tarifaço americano oferece uma pista mais importante do que o discurso oficial. Categorias de terras raras, grafita, lítio, níquel, nióbio e outros minerais estratégicos foram poupadas da sobretaxa de 25%, enquanto etanol, máquinas e diversos manufaturados permaneceram expostos. Washington escolheu pressionar o Brasil sem comprometer insumos essenciais à própria segurança econômica.

A medida entra em vigor em 22 de julho e encerra a investigação conduzida pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, o USTR. O processo reuniu comércio digital e pagamentos, tarifas preferenciais, combate à corrupção, propriedade intelectual, etanol e desmatamento ilegal. Disputas distintas foram submetidas ao mesmo instrumento para ampliar o poder de barganha americano.

Os minerais críticos acrescentam uma dimensão geopolítica ao conflito. Segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos, o Brasil possui reservas estimadas em 21 milhões de toneladas de terras raras, abaixo apenas das 44 milhões de toneladas chinesas. A produção brasileira, porém, foi de apenas 2 mil toneladas em 2025. O país dispõe do recurso, mas ainda ocupa posição modesta no refino e na fabricação de componentes, etapas nas quais está o maior valor.

A isenção indica que Washington não quer dificultar o acesso a fornecedores capazes de reduzir sua dependência da China. Para o Brasil, há oportunidade e risco: atrair
investimentos e integrar cadeias tecnológicas ou repetir o padrão de exportar matéria-prima e importar ímãs, baterias e equipamentos sofisticados.

Minerais críticos não devem entrar na negociação apenas como concessão comercial. O acesso precisa estar associado a processamento local, tecnologia, pesquisa, mão de obra qualificada, rastreabilidade e padrões ambientais. Sem essas condições, uma vantagem geológica será convertida em dependência industrial.

No etanol, o conflito é mais imediato. Segundo o USTR, o Brasil mantém tarifa de 18%, enquanto as exportações americanas para o mercado brasileiro caíram de US$ 761
milhões, em 2018, para US$ 96 milhões, em 2025. Washington apresenta a diferença como falta de reciprocidade.

A discussão não deveria se limitar à proteção do etanol de milho americano ou do etanol de cana brasileiro. O biocombustível substitui parte da gasolina na frota existente, reduz a dependência do petróleo e contribui para a transição enquanto a eletrificação avança.

O etanol não tem emissão zero. Seu desempenho climático depende da matéria-prima, do processo produtivo e do uso da terra. Ainda assim, oferece uma rota de
descarbonização já disponível em escala, especialmente em países que não conseguirão eletrificar rapidamente toda a frota.

O desmatamento é o ponto em que comércio, clima e competitividade se encontram. O USTR sustenta que a ilegalidade reduz custos de terra e produção, criando vantagem indevida. Na decisão final, retirou a celulose solúvel de alta pureza da lista de isenções após alegações de que produtores seriam beneficiados pelo desmatamento ilegal.

A preocupação é legítima, mas a tarifa permanece mal calibrada. Ela não separa empresas rastreadas de cadeias contaminadas pela ilegalidade. Também deixa em
segundo plano a redução de aproximadamente 50% do desmatamento na Amazônia e de 32% no Cerrado entre 2022 e 2025.

Esses avanços não eliminam falhas de fiscalização, lavagem de gado, fraudes fundiárias e dificuldades de rastreabilidade. Demonstram, porém, que políticas de controle produzem resultados e deveriam ser consideradas em uma avaliação comercial equilibrada.

A vantagem brasileira estará em oferecer energia e minerais com menor intensidade de carbono, origem verificável e maior processamento doméstico. Isso permite transformar proteção ambiental em atributo competitivo, e não apenas em resposta defensiva a pressões externas.

A resposta brasileira deve separar os dossiês. Minerais críticos exigem estratégia industrial; o etanol, negociação comercial e climática; o desmatamento, comprovação de legalidade. Uma retaliação ampla pode elevar custos internos e produzir nova escalada.

Os Estados Unidos pouparam aquilo de que precisam e tarifaram aquilo que pode gerar pressão. O Brasil deve negociar a partir do que possui, agregar valor antes de exportar e mostrar que energia renovável, minerais estratégicos e proteção florestal pertencem à mesma política de desenvolvimento.

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