Pedro Côrtes
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Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

Análise: Com petróleo pressionado, querosene de aviação deve subir

Reajuste já ocorreu em março, mas escalada do Brent indica novas altas mensais à frente.

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O preço do QAV (querosene de aviação) no Brasil entrou em trajetória de alta e deve continuar pressionado nos próximos meses, em um movimento diretamente ligado à escalada do petróleo no mercado internacional — e que tende a se intensificar caso o atual prêmio geopolítico persista.

Um primeiro sinal concreto já foi dado: a Petrobras elevou em 9,4% o preço do combustível a partir de 1º de março, equivalente a um aumento de R$ 0,31 por litro nas vendas às distribuidoras.

O dado é mais do que pontual. Ele confirma a lógica estrutural de formação de preços do QAV no país: reajustes mensais baseados na variação do petróleo e do câmbio.

Nesse modelo, a defasagem é curta e a transmissão do choque externo tende a ocorrer rapidamente — especialmente em um ambiente em que o Brent saiu da faixa de US$ 60–70 no início do ano para níveis próximos de US$ 90–100, sob efeito direto das tensões no Oriente Médio.

Na prática, isso significa que o aumento observado em março funciona como uma “primeira rodada” de ajuste. Mantidas as condições atuais de mercado — petróleo elevado, risco no Estreito de Ormuz e custos logísticos mais altos — novos reajustes devem ocorrer já nas próximas janelas mensais, com potencial de repetição de altas na ordem de um dígito por mês.

O mecanismo contratual da Petrobras reforça essa leitura: os preços do QAV são atualizados no início de cada mês, o que reduz a inércia e acelera o repasse.

A trajetória recente capturada pela própria cobertura da CNN Brasil reforça esse padrão de volatilidade: o combustível vinha de cortes no início do ano — incluindo uma redução de 9,4% em janeiro — e passou a subir conforme o petróleo voltou a ganhar tração.

Isso evidencia que o QAV no Brasil opera como um derivado altamente sensível ao ciclo internacional, com pouca capacidade de amortecimento no curto prazo.

Do ponto de vista de magnitude, o reajuste de março (9,4%) oferece uma referência concreta para o que pode vir pela frente.

Em um cenário de petróleo estabilizado próximo de US$ 90–100, o mercado trabalha com a possibilidade de aumentos adicionais cumulativos relevantes ao longo do trimestre, ainda que não necessariamente lineares.

Em cenários mais extremos — como interrupções logísticas no Golfo — há estimativas de alta significativamente superior, embora ainda sem confirmação material no mercado doméstico.

O impacto tende a ser direto e rápido sobre o setor aéreo. O QAV responde por cerca de um quarto dos custos operacionais das companhias, o que torna o repasse às tarifas praticamente inevitável em ciclos prolongados de alta.

No Brasil, onde o combustível já carrega componentes logísticos e tributários relevantes, a pressão pode ser ainda mais pronunciada, ampliando o efeito inflacionário no segmento de serviços.

Em síntese, o Brasil já entrou em um ciclo de alta do querosene de aviação, com um reajuste relevante implementado em março e forte probabilidade de novos aumentos já nos próximos meses.

A variável-chave passa a ser o petróleo: enquanto o Brent permanecer elevado, o QAV tende a acompanhar — quase automaticamente —, consolidando um novo patamar de custos para o setor aéreo.

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