Pedro Côrtes
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Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

Década mais quente eleva inflação e risco global

Calor já impacta energia, crédito e IPCA no Brasil

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Um relatório da OMM (Organização Meteorológica Mundial) indica que a última década concentrou os anos mais quentes desde a Revolução Industrial.

O dado divulgado pela ONU (Organização das Nações Unidas) nesta segunda-feira (23) reforça a intensificação do aquecimento observado nas últimas décadas — fenômeno associado ao aumento das concentrações de gases de efeito estufa — e que já opera como variável relevante para inflação, crescimento e custo de capital, com efeitos perceptíveis nos mercados globais.

O ponto de inflexão está na recorrência. O aquecimento não é mais episódico, mas cumulativo, elevando a frequência e a intensidade de eventos extremos.

Ondas de calor mais longas, secas mais severas e regimes de chuva desorganizados afetam simultaneamente agricultura, infraestrutura e geração de energia, criando choques de oferta cada vez mais frequentes.

Esse padrão impõe um custo econômico crescente. A volatilidade na produção agrícola pressiona alimentos, enquanto a maior demanda por energia — especialmente em períodos de calor intenso — eleva custos operacionais em toda a economia.

Em países com forte dependência hidrelétrica, como o Brasil, a irregularidade hídrica exige maior uso de térmicas, encarecendo o sistema elétrico e ampliando o risco de repasse tarifário.

O impacto sobre a inflação já não é marginal. Em cenários de estresse climático, choques simultâneos em alimentos e energia tendem a elevar o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) de forma persistente.

Simulações recorrentes indicam que pressões combinadas nesses dois vetores podem adicionar frações relevantes de ponto percentual à inflação ao longo de poucos meses, dificultando a convergência à meta perseguida pelo BC (Banco Central) e aumentando a sensibilidade da política monetária.

Esse ambiente também altera a precificação de risco. Investidores passam a exigir prêmios maiores para economias mais expostas a eventos extremos ou com menor capacidade de adaptação.

O resultado é a abertura de spreads, maior custo de financiamento e potencial pressão cambial — um ciclo que retroalimenta a inflação e restringe o espaço para crescimento.

Há ainda um efeito silencioso, mas estrutural: o aumento do custo sistêmico da economia. Eventos climáticos elevam despesas com seguros, interrompem cadeias logísticas e exigem investimentos crescentes em adaptação.

Trata-se de um encarecimento difuso, que reduz produtividade e corrói margens, funcionando como um choque negativo de oferta de longo prazo.

A leitura que emerge é clara: o aquecimento global deixou de ser um tema ambiental e passou a integrar o núcleo duro da macroeconomia.

A década mais quente já registrada redefine o comportamento de preços, amplia a incerteza e impõe um novo regime de risco para mercados e formuladores de política.

Nesse contexto, inflação, juros e spreads passam a refletir não apenas fundamentos tradicionais, mas também a física do clima. O que antes era tratado como tendência de longo prazo agora opera no presente — e já está sendo precificado.

A inflação, cada vez mais, não é apenas monetária: é também térmica.

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