Irã: risco geopolítico cresce, mas não afeta cotação do petróleo
Instabilidade adiciona prêmio geopolítico, mas não altera fundamentos do mercado no curto prazo

No curto prazo, os protestos no Irã tendem a ter impacto limitado sobre as cotações internacionais do petróleo, segundo a leitura predominante do mercado internacional. O movimento social em curso adiciona ruído político a uma região historicamente sensível, mas, até aqui, não altera de forma material o equilíbrio global entre oferta e demanda, que segue marcado por abundância de barris disponíveis.
O principal fator de contenção é estrutural. A produção mundial caminha para um novo recorde, impulsionada sobretudo pelos Estados Unidos, que consolidaram sua posição como maior produtor global de petróleo. Esse aumento de oferta cria um colchão relevante contra choques localizados, reduzindo a capacidade de eventos internos, como os protestos iranianos, de provocar altas sustentadas de preços. Em outras palavras, o mercado hoje opera com margem de segurança maior do que em crises passadas.
Além disso, o peso do Irã na produção global é relativamente pequeno, em torno de 3% a 3,5%, mesmo considerando volumes exportados por canais sancionados. Trata-se de um volume relevante do ponto de vista geopolítico, mas insuficiente, isoladamente, para provocar uma disrupção estrutural no mercado internacional de petróleo. Boa parte desse petróleo já circula fora dos fluxos formais, reduzindo o efeito marginal de eventuais perdas adicionais decorrentes da instabilidade interna.
Nesse contexto, o que se observa é mais uma precificação de risco geopolítico do que um choque econômico concreto. Investidores incorporam um prêmio de incerteza aos contratos futuros, elevando a volatilidade no curto prazo, mas tendem a recuar quando fica claro que não há interrupções efetivas na produção, nos terminais ou nas exportações. Esse padrão tem se repetido em episódios recentes no Oriente Médio e ajuda a explicar por que os movimentos de alta costumam ser rápidos, porém pouco duradouros.
O cenário, contudo, não é isento de riscos. Caso os protestos evoluam para um conflito regional mais amplo, com a participação direta ou indireta de outros países, a dinâmica muda de patamar. Um agravamento desse tipo poderia afetar rotas estratégicas de transporte, como o Estreito de Hormuz, elevando custos de frete, seguros marítimos e, consequentemente, os preços internacionais do petróleo. Trata-se de um risco de baixa probabilidade no momento, mas de alto impacto potencial — e, por isso mesmo, permanentemente monitorado pelo mercado.
Em síntese, no estágio atual, os protestos no Irã representam mais um fator de percepção de risco do que um vetor econômico capaz de alterar estruturalmente as cotações do petróleo. A combinação de oferta global elevada, produção recorde nos Estados Unidos e peso relativo limitado do petróleo iraniano atua como um amortecedor. O mercado segue atento, mas ainda distante de precificar um choque real de oferta — a menos que a crise política interna se transforme em um conflito regional com implicações diretas sobre a logística global de energia.
