Pedro Côrtes
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Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

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Mineração em risco: tarifas dos EUA podem travar exportações e investimento

Caso a sobretaxa persista, o setor mineral brasileiro será fortemente impactado e a situação pode piorar em caso de retaliação do Brasil

  • Dominik Vaanyi/Unsplash
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A imposição de uma sobretaxa de 50% pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros pode ter efeitos significativos para o setor nacional de mineração, especialmente em relação à competitividade das exportações de minérios e metais semimanufaturados.

Produtos como cobre, alumínio, aço semiacabado e ferro-gusa — todos com forte presença no mercado norte-americano — enfrentariam um aumento expressivo de custo, tornando-os impraticáveis frente a fornecedores de outros países.

Isso tende a reduzir as vendas externas, pressionar as margens dos produtores brasileiros e comprometer investimentos no setor mineral.

Além disso, essa medida pode desencadear uma realocação forçada dos fluxos comerciais, com empresas brasileiras buscando mercados alternativos, como Europa e Ásia, exigindo adaptações logísticas e pode não compensar a perda do mercado norte-americano no curto prazo.

Mesmo que novos mercados sejam desenvolvidos, isso não é nada que possa ser feito rapidamente, ao depender de acordos comerciais e arranjos logísticos que demandam tempo.

E tempo é algo que o Brasil não tem, pois faltam menos de duas semanas para que essa nova tarifa entre em vigor.

Os fluxos financeiros de empresas de mineração que exportam para o mercado americano serão imediatamente afetados e muitas dessas empresas não terão como suportar esse choque sem que linhas emergenciais de financiamento sejam ofertadas pelo governo.

Retaliação

O governo brasileiro indicou a possibilidade de adotar medidas de retaliação, elevando o risco de uma escalada comercial entre os dois países. Esse cenário adiciona uma camada de incerteza econômica e geopolítica, com impactos que se estendem por toda a cadeia da mineração.

Para o setor mineral, isso poderá constituir um grande problema, prejudicando a competitividade do setor em outros mercados. As grandes empresas de mineração utilizam muitos equipamentos importados dos EUA.

Uma retaliação pode comprometer investimentos na aquisição de bens de capital, essenciais à manutenção e ampliação das minas atualmente em operação.

Também pode reduzir o desenvolvimento de novas minas, por dependerem da importação de máquinas, equipamentos e sistemas produtivos. Adicionalmente, a manutenção adequada dos equipamentos em operação depende de peças e componentes importados e que poderão ter seus preços majorados em uma ação retaliatória.

Solução diplomática

Na ausência de uma solução diplomática, o setor mineral brasileiro pode ingressar em um ciclo prolongado de retração, marcado pela queda nas exportações, redução de investimentos e desaceleração da atividade produtiva.

Esse cenário pode provocar resultados negativos duradouros sobre a balança comercial, ao comprometer uma das principais fontes de geração de divisas do país, além de enfraquecer o dinamismo de setores encadeados, como transporte, indústria metalúrgica e equipamentos pesados.

Em consequência, o ritmo de crescimento da economia brasileira tende a ser afetado negativamente, sobretudo em regiões fortemente dependentes da mineração como vetor de desenvolvimento.

Sem diálogo e articulação diplomática imediata, o Brasil pode comprometer um de seus setores mais estratégicos e ampliar ainda mais sua vulnerabilidade externa em um momento de instabilidade global.

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