Pedro Côrtes
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Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

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Petróleo reage à escalada geopolítica e ganha volatilidade

Preço do barril responde mais ao cenário internacional do que a fundamentos. Prêmio de risco pode se consolidar de forma estrutural.

Refinaria Abreu e Lima (RNEST), da Petrobras,  • Fernando Frazão/Agência Brasil
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O mercado internacional de petróleo entrou em 2026 sob um regime claro de precificação de risco geopolítico, e não de escassez física de oferta. A trajetória recente do Brent mostra isso. Desde a mínima registrada em meados de dezembro de 2025, quando o barril fechou próximo de US$ 58, a cotação acumulou uma alta de cerca de 21%, alcançando patamares ao redor de US$ 70 no fim de janeiro.

Esse movimento coincide com a intensificação de eventos geopolíticos envolvendo diretamente o governo dos Estados Unidos. A escalada retórica e militar em relação ao Irã, a movimentação de esquadras navais no entorno do Estreito de Ormuz e episódios como o abate de um drone iraniano no Golfo passaram a ser rapidamente incorporados aos preços, ampliando o chamado prêmio de risco embutido no barril.

A sequência de altas no fim de janeiro ilustra esse mecanismo. Em poucos pregões, o Brent avançou mais de 10%, sem que houvesse interrupções relevantes no fluxo global de petróleo. O gatilho não foi a perda efetiva de oferta, mas a percepção de que um eventual conflito no Oriente Médio poderia afetar rotas críticas por onde escoa uma parcela significativa da
produção mundial.

A dinâmica ficou ainda mais clara no início de fevereiro, quando sinais de abertura a negociações entre Washington e Teerã reduziram temporariamente o risco percebido. Em um único dia, o Brent recuou mais de 4%, evidenciando que parte relevante da alta anterior estava ancorada em expectativas e não em fundamentos físicos imediatos.

Esse padrão de comportamento reforça a leitura de que o petróleo entrou em 2026 operando sob volatilidade estruturalmente mais elevada. Enquanto a instabilidade geopolítica persistir — mesmo sem conflitos abertos — o mercado tende a reagir de forma assimétrica a declarações, movimentações militares e ruídos diplomáticos, com impacto direto sobre preços,
inflação energética e custo de capital em economias dependentes de energia fóssil.

Mais do que um episódio pontual, o avanço de 21% desde o fundo de dezembro sinaliza que o Brent voltou a funcionar como termômetro de risco global, e não apenas como reflexo de oferta e demanda. Para investidores, governos e consumidores, o recado é claro: em 2026, o preço do petróleo responde menos ao bombeamento e mais ao tabuleiro geopolítico.

O ponto de atenção para o mercado é que esse movimento pode deixar de ser episódico. Caso as tensões geopolíticas permaneçam elevadas por muitos meses — especialmente no entorno do Oriente Médio — o prêmio de risco pode se consolidar de forma estrutural na curva do petróleo, e não apenas como volatilidade de curto prazo. Nesse cenário, o Brent passaria a operar em um patamar mais alto de equilíbrio, pressionando custos de energia, expectativas inflacionárias e decisões de investimento, além de reduzir a previsibilidade para economias e empresas intensivas em combustíveis fósseis.

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