Pedro Côrtes
Blog
Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

PIB pode crescer, mas qualidade nem sempre acompanha

Indicador da ONU mostra se a riqueza gerada vira qualidade de vida duradoura ou apenas consumo rápido de recursos naturais

Compartilhar matéria

O crescimento do PIB costuma ser tratado como sinônimo automático de progresso. Mas essa associação pode ser enganosa. Um país pode crescer por anos explorando intensamente seus recursos naturais — florestas, água, solos, minérios — sem transformar essa riqueza em investimentos duradouros em infraestrutura, saúde e educação.

Quando esses recursos se esgotam ou se degradam, o crescimento perde base, a produtividade cai e o custo econômico aparece mais à frente.

É justamente para expor esse risco que as Nações Unidas passaram a trabalhar com o conceito de Riqueza Inclusiva. A ideia central é simples: medir quanto do PIB convencional está sendo convertido em melhoria sustentável da qualidade de vida das pessoas, e quanto está sendo apenas consumido no presente, sem deixar ativos para o futuro.

Diferentemente do PIB tradicional, que registra apenas o fluxo anual da produção, a Riqueza Inclusiva olha para o estoque de riqueza que sustenta o bem-estar ao longo do tempo.

Ela combina três elementos: infraestrutura e capital produtivo, capital humano (educação e saúde) e capital natural. O crescimento só é considerado saudável quando o avanço econômico fortalece — ou ao menos preserva — esses três pilares.

Na prática, o indicador ajuda a responder duas perguntas-chave. A primeira: quanto do crescimento econômico está, de fato, melhorando de forma duradoura a vida das pessoas?

A segunda: quanto desse crescimento está sendo usado para criar alternativas econômicas futuras, capazes de manter esses ganhos quando os recursos naturais atuais deixarem de sustentar a expansão?

Os relatórios internacionais mostram que, em muitos países, parte relevante do crescimento vem do consumo acelerado de recursos naturais sem contrapartida equivalente em educação, saúde ou diversificação produtiva.

No curto prazo, o PIB sobe. No longo prazo, porém, o país se torna mais vulnerável a choques climáticos, perde produtividade, enfrenta maior pressão fiscal e vê seu potencial de crescimento diminuir.

Esse alerta é particularmente relevante para o Brasil, que perdeu participação no PIB global — de patamares próximos a 3,5% no início dos anos 1980 para cerca de 2% recentemente — pressionado por entraves fiscais, baixa produtividade e dificuldades estruturais para sustentar ciclos de investimento de longo prazo, ao mesmo tempo em que o bônus demográfico se esgota e o envelhecimento da população avança.

Nesse contexto, ampliar a Riqueza Inclusiva passa necessariamente pela reindustrialização do país em bases modernas, sem abandonar outras atividades econômicas.

Não se trata de substituir o agronegócio, os serviços ou a economia de recursos naturais, mas de ampliar o leque de alternativas produtivas, incorporando mais tecnologia, valor agregado e encadeamentos industriais.

Uma indústria mais sofisticada aumenta a produtividade, gera empregos de maior renda, estimula a inovação e cria fontes mais estáveis de arrecadação — fundamentais em uma sociedade que envelhece e demanda mais gastos em saúde e previdência.

Sem um esforço consistente de diversificação e sofisticação produtiva, o risco é que o crescimento econômico fique excessivamente dependente de poucos motores, ainda que eficientes e competitivos, limitando o avanço sustentado da renda e a capacidade de absorver choques externos.

A ampliação da Riqueza Inclusiva passa justamente por agregar valor às cadeias já existentes, fortalecer encadeamentos industriais e expandir atividades intensivas em tecnologia, de forma a transformar crescimento em qualidade de vida duradoura.

O indicador ajuda a tornar visível se o PIB está sendo usado para ampliar a robustez econômica do país ou se está deixando de construir bases adicionais para o futuro.

O debate não propõe abandonar o PIB, mas explicitar seus limites. Crescer explorando rapidamente o que não se renova, sem investir em pessoas, infraestrutura e capacidade produtiva, pode inflar estatísticas hoje — e comprometer o crescimento justamente quando esses recursos deixarem de sustentar a economia.

A Riqueza Inclusiva busca revelar esse risco antes que ele se transforme em um problema econômico estrutural.

Acompanhe Economia nas Redes Sociais