Pedro Côrtes
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Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

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Venezuela: discurso político esbarra na lógica do capital

Mesmo com apelo estratégico, risco elevado e retorno incerto afastam as grandes petrolíferas americanas

Mercado internacional de petróleo opera sob uma tendência estrutural de preços mais pressionados, refletindo a desaceleração do crescimento da demanda global  • Imagem gerada por IA
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A recusa das grandes petrolíferas americanas em investir de forma relevante na Venezuela evidencia o descompasso entre a retórica política e a racionalidade econômica que orienta a alocação de capital no setor de óleo e gás.

Embora a proposta defendida por Donald Trump seja apresentada como uma oportunidade estratégica para recuperar a produção venezuelana e ampliar a oferta global de petróleo, as companhias enxergam o país, no ciclo atual de mercado, como um ambiente de risco elevado demais para justificar compromissos de longo prazo.

Entre as grandes empresas, a memória institucional pesa. Aquelas que tiveram ativos expropriados durante o ciclo de nacionalizações, como a Exxon Mobil, classificam a Venezuela como “não investível” nas condições atuais, citando insegurança jurídica, fragilidade regulatória e histórico recorrente de quebra de contratos.

O potencial das maiores reservas de petróleo do mundo é reconhecido, mas apenas como um ativo estratégico condicionado a reformas profundas no marco legal e à criação de garantias robustas de proteção ao investimento.

A Chevron adota uma postura mais pragmática, porém igualmente cautelosa. Única grande petrolífera americana a manter presença operacional no país, por meio de joint ventures com a estatal PDVSA, a companhia limita sua atuação à preservação de ativos existentes e a incrementos marginais de produção.

Novos projetos de grande porte seguem fora do radar enquanto o ambiente político e regulatório permanecer instável. A ConocoPhillips, por sua vez, mantém distância ainda maior, condicionando qualquer retorno à resolução de arbitragens internacionais decorrentes de expropriações passadas.

Do ponto de vista econômico, o timing também joga contra a Venezuela. O mercado internacional de petróleo opera sob uma tendência estrutural de preços mais pressionados, refletindo a desaceleração do crescimento da demanda global e projeções de consumo mais baixo nos próximos anos.

Nesse contexto, mesmo uma retomada gradual da produção venezuelana tende a atuar como fator adicional de pressão baixista sobre as cotações, ainda que de forma marginal e diluída no tempo.

No médio e longo prazo, aumentos mais relevantes da oferta poderiam contribuir para manter Brent e WTI em patamares estruturalmente mais baixos do que seriam na ausência da Venezuela, sobretudo se a reação da OPEP+ não for suficiente para neutralizar esse volume adicional.

Esse cenário, paradoxalmente, reduz o apetite das próprias petrolíferas americanas. Preços internacionais mais baixos comprimem margens e elevam o custo de capital relativo.

Nesse contexto, projetos de maior custo tornam-se marginais abaixo de determinados patamares de preço, limitando a capacidade de investimento em novas fronteiras produtivas.

Há ainda um efeito indireto relevante. A pressão baixista sobre os preços do petróleo tende a atingir as operações de fracking nos Estados Unidos, cuja viabilidade econômica é sensível a oscilações de preço.

Isso cria um desincentivo adicional para que companhias americanas apoiem, com capital próprio, a reconstrução do setor petrolífero venezuelano, que poderia acabar competindo com seus próprios ativos domésticos.

Somam-se a esses fatores o ambiente político ainda instável, o histórico recente de nacionalizações, a fragilidade institucional e o peso crescente de critérios ESG. O petróleo venezuelano é pesado e intensivo em carbono, ampliando riscos reputacionais e dificulta sua compatibilização com as exigências de investidores globais.

Mesmo promessas de garantias estatais, financiamento público ou tutela política direta não eliminam a percepção de que se trata mais de um projeto geopolítico do que de uma oportunidade econômica clara.

Em síntese, as grandes petrolíferas americanas não descartam a Venezuela como opção de longo prazo, dadas suas reservas expressivas, mas deixam evidente que não estão dispostas a liderar, agora, um processo de reconstrução caro, juridicamente incerto e economicamente sensível a um ciclo de preços mais baixos.

Sem reformas institucionais profundas e uma equação de risco-retorno claramente favorável, a cautela tende a prevalecer — muito aquém do discurso político.

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