Brent supera US$ 90 e revela novo piso geopolítico do petróleo
Conflito entre EUA-Israel e Irã, risco prolongado em Ormuz e maior envolvimento europeu empurram o mercado para um regime de preços mais alto

O petróleo do tipo Brent superou a barreira de US$ 90 por barril, um patamar que até poucas semanas atrás parecia distante, mas que agora passa a refletir um novo regime de risco geopolítico no mercado global de energia. Mais do que um movimento especulativo, a escalada incorpora a percepção crescente de que a guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã tende a durar mais do que o inicialmente previsto.
O principal catalisador é o Estreito de Ormuz. Embora não exista um bloqueio formal, o corredor marítimo por onde transitam cerca de 20% do petróleo comercializado no mundo opera, na prática, sob condições de risco equivalentes a um fechamento total. A ameaça de ataques a navios, aumento abrupto dos prêmios de seguro e desvios de rota transformaram o custo logístico em um componente relevante do preço do barril.
Em mercados físicos de petróleo, isso se traduz em um “prêmio de risco logístico”: o frete sobe, o seguro encarece e cargas passam a negociar com adicional sobre as cotações financeiras. Mesmo sem interrupção total do fluxo de petróleo do Golfo, o custo marginal do barril entregue ao consumidor final já incorpora essa incerteza.
O segundo fator é a mudança na expectativa de duração do conflito. O mercado tratou inicialmente a escalada militar como um choque de curta duração, semelhante a episódios recentes no Oriente Médio. Agora, a percepção dominante é que a guerra pode evoluir para um confronto prolongado, com ataques indiretos à infraestrutura energética e rotas marítimas.
Esse tipo de risco tende a criar o que analistas chamam de “piso geopolítico” para os preços do petróleo. Diferentemente de choques temporários, ele se sustenta enquanto a possibilidade de interrupção de oferta continuar presente, mesmo que a produção global permaneça relativamente estável.
Um terceiro elemento começa a ganhar peso: o envolvimento gradual da Europa. Países europeus ampliaram presença naval na região e passaram a discutir medidas de proteção ao tráfego marítimo, um movimento que sinaliza que o conflito deixou de ser estritamente regional. Quanto maior for o número de atores estratégicos envolvidos, maior a probabilidade de escalada ou de incidentes que ampliem o prêmio de risco no mercado.
O resultado é uma mudança de percepção no mercado de petróleo. Durante grande parte do último ano, o Brent oscilou entre US$ 65 e US$ 70 por barril, refletindo um excedente de oferta e uma demanda arrefecida. Agora, o mercado passa a trabalhar com a hipótese de que o preço de equilíbrio pode estar migrando para uma faixa mais elevada.
Ataques à infraestrutura saudita em Abqaiq, em 2019, provocaram um salto abrupto nos preços, mas o choque foi revertido rapidamente porque a capacidade de produção foi restaurada em poucos dias. Agora, o risco não está apenas na perda de oferta, mas na insegurança prolongada das rotas marítimas, o que tende a sustentar por mais tempo o prêmio geopolítico no barril.
A OPEP+ tem disponibilidade de atender à demanda atual, mas a dificuldade está no transporte. Enquanto Ormuz permanecer sob tensão e a guerra seguir sem perspectiva clara de desescalada, o petróleo tende a carregar um prêmio adicional. Nesse contexto, o Brent superando US$ 90 pode não representar um pico temporário, mas o início de um novo patamar de preço para a energia global.



