Pedro Côrtes
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Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

Rússia e Israel elevam petróleo à faixa dos US$ 70

Navio russo em Ormuz e suposto ataque coordenado de Israel e EUA contra o Irã reprecificam risco no Golfo

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O Brent voltou a orbitar a marca de US$ 70 o barril, movimento que não nasce de um choque físico de oferta, mas de uma reprecificação súbita do risco geopolítico.

O estopim foi duplo: o envio de um navio russo à região do Estreito de Ormuz — rota estratégica por onde passa cerca de 20% do petróleo comercializado globalmente — e a elevação do nível de alerta por parte de Israel, que estaria planejando um ataque ao Irã juntamente com os EUA, segundo matéria publicada pela CNN Brasil.

O mercado não reagiu a barris efetivamente retirados do sistema, mas à probabilidade de que isso ocorra. Em energia, risco potencial já tem preço.

O que está sendo incorporado às curvas é, primeiro, a possibilidade de disrupção em Ormuz. Movimentos navais, mesmo classificados como defensivos, ampliam o prêmio de risco porque o mercado opera com cenários.

Não é a perda concreta de oferta que pesa, mas a chance de bloqueio parcial ou incidente que altere fluxos logísticos. Em paralelo, a tensão entre Israel e Irã adiciona uma camada de incerteza estratégica: qualquer resposta militar pode ter desdobramentos regionais difíceis de calibrar.

Forma-se, assim, uma assimetria de risco — há mais espaço para alta do Brent caso ocorra um incidente do que para eventuais baixas mais significativas no curtíssimo prazo. A inclinação dos contratos próximos sugere uma reprecificação tática. Ainda não há sinal claro de mudança estrutural de fundamentos.

US$ 70 é novo patamar?

Patamares estruturais no petróleo não se consolidam por manchetes, mas por fundamentos persistentes.

Historicamente, três vetores sustentam mudanças duradouras de faixa: restrição prolongada de oferta — seja por cortes coordenados da Opep e aliados, seja por disciplina fiscal de produtores, expansão robusta da demanda global ou transformação duradoura no risco geopolítico percebido.

Não há anúncio de cortes adicionais relevantes, tampouco evidência de aceleração significativa da demanda mundial. O que se observa é a incorporação de um prêmio geopolítico que pode se dissipar na ausência de fato concreto. Entretanto, há o risco de que esse terceiro fator predomine.

Para que US$ 70 se torne piso estrutural, seria necessário um ambiente de incidentes recorrentes no Golfo, escalada diplomática prolongada entre Teerã e Tel Aviv ou interrupções logísticas verificáveis.

Sem isso, o Brent tende a oscilar novamente na faixa anterior, próxima de US$ 65–68, que vinha refletindo equilíbrio entre oferta confortável fora da OPEP+ e crescimento global moderado.

A leitura macro

A US$ 70, o Brent não configura choque inflacionário global automático. Contudo, o nível sustenta margens de exportadores, pressiona moedas de importadores líquidos e pode reforçar postura cautelosa de bancos centrais caso a tensão se prolongue. O impacto não está no número isolado, mas na persistência dele.

O mercado, atualmente, testa limites de risco — não revisa fundamentos estruturais. Se o prêmio geopolítico arrefecer, parte do movimento pode ser devolvida. Se houver incidente concreto em Ormuz, o atual teto pode rapidamente se converter em piso.

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