Pedro Côrtes
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Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

Análise: Guerra pressiona petróleo, diesel e água

Brent retorna à faixa de US$ 88, enquanto ataques no Golfo e às refinarias russas elevam os riscos para combustíveis, logística e inflação

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O petróleo voltou a refletir a escalada da guerra entre Estados Unidos e Irã. O Brent fechou a sexta-feira a US$ 88,10 por barril, com alta de 4,6% no dia e de aproximadamente 16% na semana, segundo a Reuters.

A expectativa de distensão no Estreito de Ormuz perdeu força. Após sete noites consecutivas de ataques norte-americanos, o Irã voltou a atingir instalações de países do Golfo que abrigam forças dos Estados Unidos.

No Kuwait, a ofensiva alcançou uma instalação petrolífera e uma unidade de geração de energia e dessalinização. A guerra ultrapassou campos de petróleo e bases militares e passou a ameaçar a infraestrutura que mantém cidades em funcionamento.

A dessalinização fornece mais de 90% da água potável do Bahrein e cerca de 90% da consumida no Kuwait. Na Arábia Saudita, chega a aproximadamente 70%. Como água e eletricidade costumam ser produzidas em instalações integradas, um ataque pode comprometer hospitais, indústrias e serviços públicos.

Segundo a Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos, cerca de 20 milhões de barris por dia atravessaram Ormuz em 2024, o equivalente a aproximadamente um quinto do consumo mundial de petróleo e derivados. O Brent próximo de US$ 90 mostra que o mercado já incorporou um prêmio elevado de risco, mas ainda não precifica uma interrupção prolongada das exportações do Golfo.

A pressão também vem da guerra entre Rússia e Ucrânia. Ataques ucranianos atingiram refinarias como Omsk, Norsi, Taneco e Syzran, provocando paralisações e menor processamento. Moscou proibiu a maior parte das exportações de diesel até o fim de julho.

Segundo a Reuters, com base em dados da Kpler, os embarques marítimos russos de diesel e gasóleo recuaram 39% em junho ante maio e 46% na comparação anual. Entre 1º e 8 de julho, ficaram em 214 mil barris por dia, diante de uma média de 793 mil barris diários em julho de 2025.

A cotação do Brent, portanto, deixa de explicar sozinha o custo da energia. Petróleo bruto disponível não substitui refinarias capazes de produzir os combustíveis exigidos pela economia. O diesel europeu chegou a valer US$ 60,77 por barril a mais do que o Brent. A diferença recorde mostra que a escassez atingia principalmente o combustível já refinado, e não apenas o petróleo utilizado para produzi-lo.

O impacto para o Brasil é direto. Brasil e Turquia absorveram juntos pelo menos metade das cargas russas disponíveis em junho. Com menos produto oferecido por Moscou e maior incerteza no Golfo, importadores brasileiros terão de disputar cargas de outros fornecedores.

Políticas de contenção podem retardar o repasse para as bombas, mas não eliminam o custo. O diesel espalha inflação com mais rapidez do que a gasolina porque movimenta caminhões, ônibus, máquinas agrícolas e equipamentos industriais. Uma alta persistente alcança fretes, alimentos e serviços urbanos.

A resposta brasileira deve combinar diversificação de fornecedores, estoques de segurança, melhor utilização do parque nacional de refino e expansão responsável do biodiesel. Essas medidas não isolam o país de uma crise internacional, mas reduzem sua vulnerabilidade.

A escalada entre Estados Unidos e Irã levou o Brent novamente à faixa dos US$ 88. A pressão mais duradoura, porém, poderá aparecer no combustível produzido pelas refinarias. Quando diesel, rotas marítimas e abastecimento de água são atingidos ao mesmo tempo, a guerra deixa de produzir apenas um choque de energia e ameaça o funcionamento cotidiano da economia.

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