Análise: Reserva de mercado na informática e terras raras
Do erro na microeletrônica ao risco nos minerais críticos, o Brasil volta a testar o limite entre soberania e integração

O Brasil já esteve diante dessa encruzilhada — e tomou a decisão errada. Nos anos 1970 e 1980, ao tentar construir uma indústria de informática protegida e pouco integrada ao mundo, perdeu a janela da microeletrônica global.
Hoje, com os minerais críticos no centro da transição energética, o risco não é falta de oportunidade. É repetir o erro, agora com ativos muito mais valiosos.
Naquele momento, o diagnóstico parecia correto: reduzir a dependência externa e construir capacidade nacional. O problema foi o instrumento.
A política de reserva de mercado isolou o país de cadeias que já nasciam globais, limitou o acesso à tecnologia e ignorou a lógica econômica do setor — escala, capex intensivo e integração internacional.
Sem isso, a indústria não ganhou tração. Ficou protegida pela reserva de mercado, mas pequena. E, no fim, irrelevante. Essa escolha teve um custo concreto — e pouco lembrado.
O Brasil chegou a ser cogitado como destino para plantas de produção de microprocessadores e componentes eletrônicos, num momento em que multinacionais buscavam expandir sua presença fora dos Estados Unidos e da Europa.
Mas a combinação de restrições à entrada de capital estrangeiro, baixa previsibilidade regulatória e limitação ao intercâmbio tecnológico afastou esses investimentos.
Eles migraram para países do Sudeste Asiático, como Singapura e Taiwan, que optaram por integração às cadeias globais. O Brasil não perdeu apenas uma indústria. Perdeu uma trajetória.
Hoje, o ponto de partida é mais favorável. O país possui reservas relevantes de minerais críticos e uma matriz energética em boa parte limpa, dois ativos centrais na nova economia. Mas isso, por si só, não garante captura de valor.
Em cadeias como baterias e ímãs permanentes, o poder econômico está concentrado no refino, na química e nos materiais avançados — não na extração.
Os números mostram o tamanho do desafio. A International Energy Agency indica que cerca de 60% do refino global de lítio e mais de 85% do processamento de terras raras estão concentrados na China.
Essa concentração não é fruto do acaso, mas de escala, investimento contínuo e inserção estratégica nas cadeias globais. É esse padrão que define quem captura valor.
Subir a cadeia, portanto, exige mais do que intenção política. Exige capex elevado, contratos de longo prazo, acesso a tecnologia e previsibilidade regulatória.
Sem isso, o investimento não fecha — ou fecha com custo de capital proibitivo. É aqui que o debate brasileiro precisa sair do discurso e entrar na conta.
Ainda assim, cresce a tentação de repetir atalhos. A OCDE registra a expansão de restrições à exportação de matérias-primas para forçar a agregação doméstica de valor.
A UNCTAD alerta que esse tipo de estratégia, quando mal calibrada, pode reduzir investimentos e comprometer a inserção competitiva dos países produtores.
O paralelo com a informática não é retórico. Nos anos 1980, o Brasil tentou criar indústria sem aceitar a lógica internacional que se impunha.
Agora, o risco é tentar capturar valor nos minerais críticos sem aceitar a lógica internacional dessas cadeias. Em ambos os casos, o problema não é a ambição — é o instrumento.
Há sinais positivos. Iniciativas do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social e da Financiadora de Estudos e Projetos indicam a tentativa de estimular processamento e inovação. Mas, sem escala e integração, a política industrial pode se tornar custo irrecuperável.
Talvez a principal lição seja simples, ainda que desconfortável. Soberania não é sinônimo de fechamento.
No passado, o Brasil confundiu os dois — e pagou o preço. Hoje, soberania significa ocupar posições relevantes nas cadeias globais, negociar melhor e capturar valor onde isso é economicamente viável.
O país tem, desta vez, uma vantagem concreta. Mas vantagem não é destino. É apenas uma oportunidade.
Se a estratégia caminhar para integração inteligente, com foco em elos viáveis e disciplina de investimento, há espaço para um desfecho diferente.
Se caminhar para isolamento disfarçado de política industrial, o resultado já é conhecido — e, desta vez, custará mais caro.



