Pedro Côrtes
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Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

EUA ampliam produção, mas seguem dependentes de terras raras

Avanço em Mountain Pass reforça oferta, mas dependência externa persiste nas etapas mais estratégicas da cadeia

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Os Estados Unidos voltaram a expandir a produção de terras raras e já operam em um patamar relevante no cenário global.

Em 2025, a produção atingiu cerca de 51 mil toneladas de REO (óxidos de terras raras), acima das 45,5 mil toneladas de 2024 e das cerca de 42 mil toneladas registradas entre 2021 e 2022. A trajetória é consistente e reflete uma política deliberada de recuperação da capacidade mineral doméstica.

Ainda assim, o avanço está concentrado na etapa de extração, com forte dependência da mina de Mountain Pass, na Califórnia.

O ponto central da análise, porém, não está na mineração, mas na estrutura da cadeia produtiva. Em 2025, o consumo americano de compostos e metais de terras raras chegou a cerca de 27 mil toneladas, enquanto a produção interna dessas formas processadas ficou em torno de 8,9 mil toneladas.

Esse descompasso evidencia um gargalo industrial relevante. A consequência direta é uma dependência líquida de importações próxima de 67%, indicando que dois terços do consumo dependem de cadeias externas.

Essa dependência é ainda mais significativa ao se observar a forma como os materiais entram no país. Parte importante das terras raras é importada na forma de compostos e metais, mas uma parcela crescente chega já incorporada a produtos industriais e eletrônicos.

Isso dificulta a mensuração precisa da dependência e amplia sua dimensão real. O problema, portanto, não é apenas quantitativo, mas estrutural, envolvendo cadeias globais complexas e altamente concentradas.

A origem das importações reforça esse diagnóstico. Entre 2021 e 2024, cerca de 71% dos compostos e metais importados vieram da China, incluindo Hong Kong, com Malásia, Japão e Estônia aparecendo como fornecedores secundários.

No entanto, parte desses fluxos intermediários também depende de insumos chineses, o que eleva a exposição efetiva dos Estados Unidos. Portanto, a dependência vai além da estatística bilateral e se insere em uma rede global dominada por poucos atores.

O segmento mais sensível é o das terras raras pesadas, essenciais para aplicações de alto desempenho. Elementos como disprósio e térbio são fundamentais para ímãs utilizados em veículos elétricos, turbinas eólicas e sistemas militares avançados.

Nesse caso, a vulnerabilidade é absoluta: em 2025, os Estados Unidos mantiveram dependência de 100% de importações. Além disso, o fornecimento está fortemente concentrado na China, ampliando o risco geopolítico.

Esse risco deixou de ser apenas potencial. Em 2025, a China reforçou controles de exportação sobre diversos elementos estratégicos, incluindo disprósio, térbio e ítrio.

Ainda que parte das medidas tenha sido ajustada ao longo do ano, o movimento consolidou as terras raras como instrumento de política industrial e externa. Para os Estados Unidos, isso significa maior volatilidade e risco nas cadeias de suprimento, especialmente em setores críticos.

Do ponto de vista da demanda, as terras raras ocupam uma posição transversal na economia americana. No mercado doméstico, o principal uso ainda está em catalisadores, sobretudo no refino de petróleo.

No entanto, o vetor mais dinâmico está nos ímãs permanentes, que sustentam motores elétricos, eletrônicos e tecnologias ligadas à transição energética. Esses materiais também são indispensáveis para aplicações de defesa, como radares, sensores e sistemas de navegação.

Diante desse cenário, a estratégia americana combina expansão doméstica com diversificação externa. A Austrália surge como parceiro estratégico relevante, com reservas de 6,3 milhões de toneladas e uma cadeia de processamento mais consolidada fora da China.

O Brasil também aparece como alternativa no médio prazo, com cerca de 21 milhões de toneladas em reservas, embora ainda enfrente limitações industriais. Canadá, Vietnã e países africanos complementam esse mapa de possíveis fornecedores.

Ainda assim, a equação estrutural permanece inalterada. Os Estados Unidos não enfrentam uma escassez significativa de recursos minerais, mas sim uma lacuna na capacidade de transformação industrial.

Enquanto a expansão da mineração não for acompanhada por avanços equivalentes em refino, separação e produção de ímãs, a dependência externa continuará elevada. A produção cresce, mas a autonomia estratégica segue incompleta.